terça-feira, 28 de maio de 2013

A Moda e o Tempo: Os Primeiros Vitorianos


A Moda e o Tempo: Os Primeiros Vitorianos

Veja as outras partes desta sequência:
  
A Moda e o Tempo Parte 1: A Revolução Romântica na Moda
A Moda e o Tempo Parte 2: Os Primeiros Vitorianos
A Moda e o Tempo Parte 3: O Homem Vitoriano e sua Barba
A Moda e o Tempo Parte 4: Mulheres Vitorianas


Quando o movimento romântico iniciou sua segunda geração - da rica poesia de Keats, Byron e Shelley -, a moda começou a se alterar. O vestido feminino embora mantendo a cintura alta e a forma tubular, tornou-se mais enfeitado e colorido. Gradativamente as saias e mangas aumentaram, adornos e laços apareceram; a mulher jovem passou a se parecer com abajures de penteadeira. As roupas dos homens, apesar de não terem se modificando tanto, se tornaram mais volumosas e coloridas. Foi o auge do periodo dandy, com sua meia comprida, peito de pombo, casaco cintado listrado e calças justas amarelas de couro de gamo. Por volta de 1820, o primeiro padrão vitoriano foi esbelecido: o homem elegante e cheio de si e a mulher infantil elaboradamente enfeitada, imatura tanto mental quanto fisicamente.

Nos primórdios da Era Romântica (inclui-se aí parte da Regência), o vestido feminino tinha forma tubular e era enfeitado com babados. Já a moda masculina vivia o auge da era dândi, de peito com enchimento, calças justas de cintura alta e cartola, o primeiro padrão vitoriano do homem cheio de si.




Os trinta anos seguintes presenciaram variações sobre esse tema, primeiro, na década de 1820, surgiu a aparência da menininha tola: toda de fitas, pompons, cachos, mangas balão e chapéus extremamente grandes e folgados. Ser pequeno e magro era uma vantagem: mãos e pés pequenos e cinturas estreitas eram exploradas, e o peito era suprimido ou encoberto por decote alto. Como estas roupas sugerem, frivolidade e inanidade tornaram-se caracteristicas femininas desejaveis. A ignorância, que era como um sinônimo de inocência, era preferida à sagacidade e à perspicácia - que sugeriam familiaridade com a impureza. Dora Spenlow, personagem do livro David Copperfild com seus suspiros, beicinhos e medos infantis é um bom exemplo deste tipo característico da época.

A partir de 1820 a aparência feminina deveria exigir fragilidade: magreza, pequenez e roupas que exalavam delicadeza e inocência.


  
Geoffrey Squire em seu brilhante estudo Dress and Society ressaltou que durante o seculo XIX, o ideal feminino como revelado pela  moda, envelheceu gradativamente. As roupas das mulheres evoluiram dos vestidos simples de musselina branca de 1800 (que podem ser comparados a camisolas de bebes), às pesadas "roupas sob medida" dos anos 1900. Em 1810, a mulher ideal era um bebê; na década de 1820 ela se tornou uma criança; nos meados dos anos de 1830, uma adolescente suscetível, recatada e despretensiosa, ao invés de ingenuamente atrevida (como Rose Maylie, Florence Dombey e Little Dorrit das obras de Dickens). Jane Eyre também apresenta este aspecto feminino ao mundo.
Pequena,ombros caídos: a mulher ideal.


A beleza do início da Era Vitoriana como retratada  nas ilustrações e estampas de moda, era de constituição pequena e esguia, como a própria jovem rainha Victoria. Seios de menina, cintura estreita, olhos grandes e escuros e boca minúscula como um botão de rosa. Parecia estar prestes a ser lançada como um balão de ar quente, mal parecia forte o suficiente pra se sustentar ereta sem o apoio de suas roupas. Sua cabeça pendia de seu pescoço fino e ombro caídos - quanto mais caídos melhor. As roupas se transformaram para se adaptar a esse novo ideal. As saias voltaram a se estender até o chão, mangas enormes e bufantes caiam até os pulsos; pregas e debruns substituíram laços e babados soltos do começo da década de 1830. A aparência de alegria infantil dos anos anteriores desapareceu;  em seu lugar, o feitio dos vestidos acentuava a inclinação submissa dos ombros caídos. Nestas roupas, as mulheres caminhavam e se moviam menos vigorosamente. Os espartilhos mais compridos e as saias volumosas pesavam, golas, fichus de renda e grandes xales franjados dificultavam ou impossibilitavam a mulher elegante de erguer os braços muito alto, enfatizando sua impotência. Seu cabelo perdeu o cacheado; agora era repartido ao meio e puxado pra trás em duas partes uniformes e pendentes. Os lados do chapéu pendiam e se fechavam sobre seu rosto, com abas que impediam sua visão lateral, como antolhos de um cavalo. Essa forma de chapéu transmitia que aquela que o usava era muito delicada e suscetível para suportar o olhar da multidão. Ao mesmo tempo expressava perfeitamente a ideia de que uma bela mulher naturalmente teria uma visao de mundo limitada e estreita: de que seu olhar não se extraviaria enquanto ela vivesse.

Roupas que limitavam o movimento do corpo, como erguer os braços, cheias de fichus e saias armadas com crinolina enfatizavam a impotência da mulher. Chapéus com grandes abas as impediam de virar completamente o pescoço e limitavam sua visão. Cabelo repartido ao meio com pontas em cacho.



Devemos assinalar que no começo, a mulher vitoriana era um ideal, não uma realidade. As mulheres cuja personalidade e atributos fisicos se ajustavam a moda que prevalecia a adotaram satisfeitas, exatamente como se faz hoje. Outras foram menos afortunadas:


"nos primeiros 50 anos do seculo XIX, enquanto a meta da roupa elegante era criar uma beleza jovem, fragil idealizada, as mulheres que eram grandes, ativas e de meia idade muitas vezes não tinham outra alternativa a não ser parecerem cômicas ou trágicas, se estiverem dispostas a agir de acordo com a moda"

Aquelas que não queriam parecer meninas ou indefesas, ou que não possuiam o físico adequado para o papel, talvez preferissem andar fora da moda, pelo menos enquanto continuasse a mesma.

Mulheres de meia idade, cheias de babados, fichus e chapéus com aba nada tinham de inocencia ou juventude e muitas vezes parecem cômicas ou trágicas quando vestidas de acordo com a moda vigente.
 



O texto foi escrito pela autora do blog de acordo pesquisas em livros de Moda lançados no Brasil e no exterior. Se forem usar para trabalhos ou sites, citem o blog como fonte. Leiam livros de Moda para mais informações e detalhes.
Fonte: livro A Linguagem das Roupas
*Originalmente postado em meu outro blog, o Moda de Subculturas.

3 comentários:

  1. Adorei, gostaria que ouve-se mais, está muito resumido, Paula.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Paula, como leu no fim do texto, o conteúdo foi retirado de um subcapítulo do livro A Linguagem das Roupas e equivale a 85% do que está escrito lá. Transcrevi o trecho do livro retirando uma ou outra frase. Há outros posts da Era Vitoriana no blog e no próprio livro citado, que é muito bom!

      Excluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

NOTA AOS LEITORES


Olá, tudo bem?
Fico feliz que tenha chegado até aqui! Infelizmente não consigo responder todos os leitores com devida atenção. Me perguntam sobre livros que uso nos textos estão, eles listados neste link: https://modahistorica.blogspot.com.br/p/livros.html

Alguns textos foram escritos entre 2009 e 2013, num período que eu não anotei as fontes, por isso eles não as tem. Portanto, quem me escreve cobrando as fontes destes artigos, espero que compreendam que não posso colocar uma fonte que não lembro ao certo/exatamente qual foi, indicando algo errado. MAS os livros que uso estão no já citado link - pra quem quiser ir atrás deles. Sei que professores e orientadores lhes cobram fontes e nada melhor que ler livros pra adquiri-las.


A quantidade de emails e comentários é grande e soaria repetitivo e cansativo eu responder isso a um por um dos leitores. Gostaria que essa cobrança que às vezes vem como crítica, ficasse mais amena através da compreensão, pois quando comecei o blog não sabia que se tornaria tão grande e que viraria referência no Brasil.
Agradeço a compreensão (e os elogios ao blog).
Sana ♥