segunda-feira, 27 de maio de 2013

Século XIX - Parte 2: A Moda na Era Vitoriana

 
A Era Vitoriana, no Reino Unido, foi o período do reinado da Rainha Victória: a partir de Junho de 1837 até Janeiro de 1901. A moda vitoriana se divide em dois momentos: Early Victorian (1837 – 1860) relativo aos primeiros anos de reinado e Mid to Late Victorian (1860 – 1901) do meio para o fim do reinado.

 Early Victorian (1837 – 1860)
  
Nascia nessa época a sociedade de consumo e por conta disso a burguesia estava com grande prestígio, afinal eram tempos de revolução industrial, consumo, comércio e desenvolvimento das ferrovias. A prosperidade influênciou a moda.

A silhueta adotada a partir de 1830, ao contrário da romântica, fez os ombros se estreitaram, a cintura baixou e os espartilhos ficaram “pontudos”, as mangas desceram até o pulso. A saia, de cônica passou a ser em formato redondo. O excesso de anáguas pesadas propiciou a invenção de um novo tipo de armação para as saias, a crinolina. Como acessório, a moda era uma pequena bolsa de cetim bordada ou estampada ou buquês de flores (foto abaixo).


No início da era Vitoriana, que foi um reinado extremamente puritano, as mulheres eram extremamente recatadas e de movimentos restritos, aparência vulnerável. As cores das roupas eram claras e o espartilho era considerado uma necessidade médica usado em versões juvenis, em crianças a partir de três anos. Crescidas, as mulheres usavam várias camadas de corpetes, mais de quatro camadas de anáguas, armação de saia, mais um vestido de 20 metros de lã ou seda com barbatanas. Ao sair de casa acrescentava-se um xale pesado e uma grande touca (bonnet) adornada, podendo carregar até 15 quilos de roupas. Os cabelos eram cacheados, olhos grandes e escuros, bocas pequenas e ombros caídos eram o ideal de beleza. As mulheres deveriam parecer uma mistura de criança e anjo.


As mangas justas eram bufantes no antebraço, o corpete e a saia formavam uma só peça abotoada atrás. Também podiam usar uma jaqueta curta separada das saias que eram compridas e rodadas, com forros de lá, anáguas e uma anca feita de crina de cavalo, a crinolina inicial, diferente de crinolina do futuro. Os sapatos, salvo exceções, eram sem salto ao estilo sapatilha, às vezes amarrada no tornozelo como a de uma bailarina e eram da mesma cor da roupa. Nas ruas podiam usar botas de tecido. As mulheres deveriam aparentar serem miúdas e terem pés minúsculos, uma imitação da estrutura corporal da Rainha Victoria.


A invenção das primeiras crinolinas de aço em 1856, foi devido ao peso intolerável das anáguas, e com a crinolina de aço aumentou-se o volume das saias, mas os babados diminuiram gradualmente em favor de uma saia mais lisa. A crinolina é um conjunto feito de crina de cavalo mesclado com algodão ou linho, usado junto com uma armação enorme, cônica e circular de aros de metal chamada cage. E representava o prestígio e esplendor da sociedade capitalista. A crinolina fazia as mulheres ficarem livres da camadas de anáguas, fazendo com que elas pudessem movimentar livremente as pernas por baixo da gaiola de aço.
Nesta  época as botas entraram na moda, com saltos mais altos e amarradas até o meio das canelas.

Lá por 1862, o formato da saia passou a ser reto na frente e projetado para trás, as mangas em estilo pagode eram amplas e o pescoço enfeitado com golas muito altas em renda ou outro tecido delicado. Essa era a roupa do dia. A roupa da noite tinha golas mais baixas e mangas curtas usadas com luvas curtas de renda ou luvas de tecido sem dedos e as saias possuíam maiores crinolinas que as saias de uso diurno. Era comum um tecido de mesma estampa ser usado para dois vestidos, um para o dia, outro para a noite. 

A maior característica da moda vitoriana eram os vestidos que cobriam totalmente a parte inferior do corpo, ao contrário da era romântica onde pés ou calcanhares ficavam aparentes. O espartilho e os ombros eram minúsculos acentuando a aparência frágil na parte de cima da cintura, complementados pela amplidão das saias. Entre 1840 e 1850 foram usados gorros que escondiam rosto e pescoço e que só permitiam a moça de olhar para a frente. Nunca as mulheres estiveram tão vestidas, apenas o rosto era exposto.

Foi nessa época que as primeiras mulheres começaram a reclamar das restrições das roupas e da saúde, tanto que fez-se surgir um tipo de calças folgadas ao estilo turco, chamadas de “bloomers” inventado pela ativista Amélia Bloomer Jenks, no entanto, a peça foi ridicularizada e a peça acabou sendo adaptada para as meninas e para educação física feminina.

Na moda masculina, a grade influência foi o Principe Albert, consorte da Rainha Victoria, ele era mais novo que ela e muito vaidoso. Os ombros e o peito eram cheios e a cintura, minúscula. Surgiu para o homem, a roupa de trabalho, já que ele era o reflexo da sociedade produtiva. As roupas eram sóbrias e sérias, o homem omitia os enfeites, à exceção da gravata, da cartola, da barba e normalmente, da corrente do relógio de bolso, que ficava aparente sobre o colete.



Mid to Late Victorian (1860 – 1901)

Na década de 1860, a silhueta se tornou menor, incluindo os chapéus. Tecidos listrados e geométricos ficaram populares, as saias podiam ser assimétricas com bastante volume atrás.
Nessa época a máquina de costura foi inventada e revolucionou a fabricação de roupas, as pessoas começaram a ter máquinas em casa. Então as roupas da aristocracia e da burguesia ficaram cada vez mais semelhantes. Charles Frederick Worth vestia todos os endinheirados houve uma aproximação visual entre as roupas das diversas camadas sociais, onde entrou pela primeira vez, no universo da moda, o prestígio do artista, do criador de moda, a pessoa que elaborava roupas e assinava coleções.

Em 1861 morre o príncipe Albert e a Rainha Victoria mergulha em tristeza, vestindo luto e não o tirando até o fim da vida. A morte do Príncipe Albert marca o início da segunda fase da Era Vitoriana: as cores escurecem. A moda vitoriana virou a moda do luto extremo, o que contribuiu pra essa cor se tornar mais aceita e digna para as mulheres. O normal era se usar luto por dois anos, mas rainha Victoria optou pelo luto permanente e muitas mulheres a imitaram.

Então, uma nova silhueta apareceu. As diversas camadas de saias foram substituídas por uma silhueta que ainda cobria extremamente o corpo, mas agora as saias foram varridas para trás, sendo justas e estreitas na frente e volumosas em um amontoado de tecido atrás terminando em cauda. Look que causou furor pois mostrou mais as formas do corpo feminino. O espartilho tornou-se ainda mais rígido, restringindo ainda mais os movimentos. No final dessa década, a crinolina foi reduzida a uma espécie de anca de arco de metal unidos por uma dobradiça que se movimentava quando a usuária de sentava ou levantava. Os tempos estavam mudando, as mulheres mais pobres e as de classe média que precisavam de renda passaram a trabalhar com datilografia ou com costura e essas mulheres protestavam contra a moda vigente.

Em 1870, a moda eram vestidos  em cores vibrantes, usando o espartilho de outra cor ou tecidos diferentes nas saias, sendo um liso e outro estampado. O chapéu ao estilo boneca dava lugar a chapéus pequenos, caídos sobre a testa. Um  tipo de jaqueta que formava uma sobre-saia foi muito usada.


Em 1880, as mangas eram justas e a parte de cima do corpo era enfeitadas com babados cobrindo o ombro. A saia ficou com forma de trombeta, ainda com muito volume na parte de trás e a forma adquirida junto com os espartilhos era a forma de ampulheta. A anca passou a se projetar horizontalmente para trás.

Alguns intelectuais da época, incluindo Oscar Wilde abominavam essa moda. Algumas mulheres rebeldes, se recusavam a usar essas roupas e usavam trajes que seguiam a linha da moda, mas mais soltas e sem espartilho. Esses intelectuais e rebeldes protestavam contra o espartilho e as camadas desnecessárias de roupas. À medida que as mulheres foram ficando mais ativas na sociedade, os espartilhos rígidos saíram de moda.

A roupa masculina vitoriana, não difere muito da roupa romântica. Se usava fraque à noite; para o dia, casaco em curva sobre os quadris com abotoamento no peito, sobretudos curtos, calças justas. Com a popularização dos esportes, o homem passou a ter um traje para cada tipo de atividade esportiva, em geral calções justos e diferentes casacos. O homem a partir dessa década passou cada vez mais a usar trajes informais.

Ainda em 1880, a anca desapareceu das roupas femininas, as saias passaram a ter formato de sino, as blusas tinham gola alta  babados de renda ou tule. A renda também passou a ser usada em vestidos e em anáguas, que eram agora um símbolo erótico, já que para atravessar a rua, as mulheres tinham que levantar o vestido e deixavam propositadamente a anágua rendada aparecer. Ainda se usavam luvas compridas à noite e leques imensos, as jóias eram extremamente coloridas.
Com a popularização das bicicletas, os bloomers, antes rejeitados, eram agora usados apesar de ainda causarem escândalos.

A  década de 1890, foi uma década de mudança de valores, para os jovens, devido aos trajes esportivos estarem em voga, havia uma sensação de liberdade ainda que as roupas cotidianas fossem extravagantes. A era vitoriana estava chegando ao fim. Ainda nessa década, o espartilho alongou e fazia com que o corpo da mulher formasse uma silhueta em forma de S. Silhueta que seria bem popular na Belle Époque.


Leia também:
Século XIX - Parte 3: Belle Epoque e Era Eduardiana
Século XIX - Parte 1: A Moda na Era Romântica


O texto foi escrito pela autora do blog de acordo pesquisas em livros de Moda lançados no Brasil e no exterior. Se forem usar para trabalhos ou sites, citem o blog como fonte. Leiam livros de Moda para mais informações e detalhes.

*Originalmente postado em meu outro blog, o Moda de Subculturas.

22 comentários:

  1. FORAM EXCELENTES AS INFORMAÇOES SOBRE O PERIODO VITORIANO.MUITO BOM MESMO

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  2. nossa um show de informaçoes amei estou querendo escrever um ebook romantico e preciso me atualisar na moda da epoca

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  3. gostaria de saber quais livros você usou como referencia, pois PRECISO URGENTE PRO MEU TCC!

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    1. Faz tempo que escrevi esse texto, não lembro exatamente, mas acho que foi o A Roupa e a Moda. Se vc estuda Moda, com certeza conhece/já viu/folheou esse livro porque ele é recomendado nas faculs.

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  4. Achei sensacional! Tá sendo muito útil para minha pesquisa. Mas gostaria de sugerir um post, também para essa minha pesquisa. Eu queria algo sobre a diferenciação das classes sociais nessa época, pois estou fazendo um trabalho sobre O Fantasma da Ópera e lá temos as pessoas que trabalham no teatro e as pessoas da alta sociedade. Queria saber mais sobre como eu poderia diferenciar uma mulher de camada mais baixa, por exemplo, de uma camada mais alta da sociedade, pela roupa.

    Abraços! Ótimo blog!

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    1. Ah era muito fácil diferenciar rsrsrs!
      http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/ec/1871-fashion-class-contrast.gif/310px-1871-fashion-class-contrast.gif

      A camada mais baixa usava roupas bem simples, muitas vezes sem as armações e apenas no domingo eles usavam roupas melhores. Acho que o que pode confundir um pouco mais é diferenciar a classe média da classe alta, porque eram roupas bem semelhantes exceto pela qualidade dos tecidos e adornos.

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  5. EStou amando seu Blog ! Parabens !



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  6. Eu gostaria de saber como eram os trajes de montaria nessa época...

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  7. Nossa parabéns!! Seus textos são maravilhosos, eu amo história e nunca pensei que tantos detalhes do contexto da época podiam estar refletidos direta ou indiretamente na moda.

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  8. muito boa matéria amando,....parabéns

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  9. Acho o blog incrível, porém sempre peca na questão das referências. Poderia publicar a bibliografia usada, até pra dar mais credibilidade à tua pesquisa. Valeu! :)

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    1. Bárbara, obrigada pelo elogio ao blog. Todos os livros que uso estão listados no blog mesmo, neste link: https://modahistorica.blogspot.com.br/p/livros.html
      Se você consultar ou pesquisar livros de história da moda em bibliotecas, pode bater informações deles com meus textos e ver que meus textos tem credibilidade, sou confiante quanto à isso.
      Em contrapartida sei que algumas pessoas tem preguiça de procurar livros de história da moda e criar os próprios textos e querem usar textos prontos da internet colocando inclusive bibliografia dos textos da internet como se eles é que tivessem pesquisado. Sei que professores pedem a bibliografia e sei que tem aluno que "finge" que leu livros mas pesquisou apenas pegando coisas da internet.
      Mas crio meus textos como hobbie e espero que cada pessoa/aluno crie os seus também pesquisando por si mesmo e adotando as próprias referências. Todos os livros que uso pra criar meus posts estão no já citado link no blog. ;)

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  10. o texto ficou lindo.Durante o seculo 19 os homens usavam uma roupa chamada capote,gostaria de saber quando essa moda desapareceu

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  11. Uma matéria melhor que a outra,queria ler também sobre a moda do short masculino,e a calça usada pelas mulher no brasil

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  12. Qual o nome dado ao babador que os homens usavam como gravata nessa época...?

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  13. muito obrigada! Ajudou muito em minha pesquisa sobre a era vitoriana

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NOTA AOS LEITORES


Olá, tudo bem?
Fico feliz que tenha chegado até aqui! Infelizmente não consigo responder todos os leitores com devida atenção. Me perguntam sobre livros que uso nos textos estão, eles listados neste link: https://modahistorica.blogspot.com.br/p/livros.html

Alguns textos foram escritos entre 2009 e 2013, num período que eu não anotei as fontes, por isso eles não as tem. Portanto, quem me escreve cobrando as fontes destes artigos, espero que compreendam que não posso colocar uma fonte que não lembro ao certo/exatamente qual foi, indicando algo errado. MAS os livros que uso estão no já citado link - pra quem quiser ir atrás deles. Sei que professores e orientadores lhes cobram fontes e nada melhor que ler livros pra adquiri-las.


A quantidade de emails e comentários é grande e soaria repetitivo e cansativo eu responder isso a um por um dos leitores. Gostaria que essa cobrança que às vezes vem como crítica, ficasse mais amena através da compreensão, pois quando comecei o blog não sabia que se tornaria tão grande e que viraria referência no Brasil.
Agradeço a compreensão (e os elogios ao blog).
Sana ♥