quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A Moda Feminina de 1700 a 1750

O século XVIII viu o nascimento da indústria moderna da moda na Europa. As revistas de moda surgiram, assim como as fashion plates (lâminas de moda). Pela primeira vez, os estilos podiam ser desenhados e copiados amplamente. A moda começou a mudar mais rapidamente liderada por Paris e Londres. As modas eram ditadas não por motivos práticos, mas por tendências de arte, cultura, política, novos descobrimentos, inovações tecnológicas e avanços científicos. Algumas modas européias eram, de fato, tão impraticáveis que renderam à seus usuários uma incapacidade de fazer as atividades diárias.
Fora de Paris e Londres, a moda mudou lentamente. Nas terras de clima quente, roupas eram básicas e até mesmo inexistentes. O conceito de mudança de modas (tendências) era algo inimaginável em outros países. Em alguns lugares, roupas estruturadas de forma simples eram belamente adornadas seguindo estilos e moldes que não mudavam há gerações.

A Roupa Feminina de 1700 - 1750
As roupas usadas pelas classes altas da França e da Inglaterra definiram os estilos usados na Europa Continental e na América. Apesar de haver variações regionais nas roupas das pessoas das classes trabalhadoras, a classe alta num geral usava roupas muito parecidas.
No século XVIII as mulheres pararam de usar os corpetes pontudos com um vestido aberto sobre uma saia. Este estilo continuou apenas na primeira década do século XVIII mas logo foi substituído pelo sack ou sack back dress.

O Robe à volante (Sack Dress)
Surgiu em torno de 1705 e tornou-se rapidamente popular permanecendo em voga até a década de 1780, embora houvessem outros estilos de vestido a partir de 1720. O robe à volante era um vestido largo e sem uma forma muito definida, tinha um pedaço de tecido preso ou pregueado dos ombros à bainha na parte de trás. Algumas vezes a amplidão da saia de cima era presa na saia de baixo o que fazia com formasse puffs, era comum prendê-la para alcançar os bolsos que eram colocados sob o panier. A frente da saia poderia ser aberta para mostrar a saia de baixo, ou  fechada. Na frente há pregas largas enviesadas no decote. Uma característica muito peculiar do robe à volante são as mangas partindo do ombro, planas no topo e mais largas nos cotovelos, terminando com um punho rígido e plissado. São combinados com um penteado leve, muitas vezes sem touca.




Panier (pannier)
O que dava forma ao "sem forma" robe à volante eram os paniers. Era uma estrutura larga feita de tecido,fitas, cana, barbatana de baleia ou de metal. O panier era inicialmente circular, mas a forma mudou entre 1725 e 1730 se tornando oval e maior, depois se estreitaram expandindo lateralmente. Havia paniers de todo tipo. A circunferência chegou a 3.60 metros em seu momento mais extremo. O vestido se tornou tão largo que as mulheres tinham que atravessar portas virando o corpo lateralmente. Mais tarde, os paniers foram feitos em duas partes, uma pra cada lado (pocket hoops). Ficaram na moda até a década de 1760 e continuaram parte do traje formal de corte mesmo após esta data.


panier inicial, arredondado.


panier num de seus tamanhos extremos


Roba à la Française
O robe à volante perde um pouco de seu volume e em torno de 1720 aparece o robe à la française. Ele tinha duas séries de pregas caindo soltas na parte de trás, do pescoço à bainha, cuja saia terminava em cauda. A frente era moldada num corpete justo com um stomacher triangular ricamente decorado preso nas laterais do corpete. Algumas vezes o stomacher era substituído por diversos laços em tamanhos decrescentes. O vestido de cima caía amplamente aberto sobre uma anágua (petticoat) de mesmo tecido bastante decorada. A decoração também contornava o pescoço com babados. As mangas eram médias, lisas e mostravam um punho cheio de rendas. Permaneceu como vestido de gala até a revolução francesa. O corte do robe à la française não varia. 

duas séries de pregas caindo soltas na parte de trás do pescoço
É comum em alguns sites estrangeiros, as pregas nas costas do robe à la française serem chamadas de "pregas Watteau". Porém as pregas não tinham esse nome na época e o pintor não participou de sua criação. 

Fonte de Pesquisa da autora:
História do Vestuário no Ocidente
The Eighteenth Century
A Roupa e a Moda

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A Moda Masculina de 1700 a 1770

Na Europa e EUA a roupa masculina mudou lentamente durante o século XVIII. França e Inglaterra eram as líderes do segmento.

Três Peças Essenciais
O traje masculino formal tem a partir de 1720, três elementos principais: a sobreveste/casaco (justaucorps), a veste e o culote (breeches). Estas peças constituem o habit usado por todas as classes sociais, com diferenças no tecido ou ornamentação.

O habit é composto por 3 peças essenciais

A sobreveste/casaco (justaucorps) tinha a frente reta com botões do pescoço à bainha e ia até os joelhos, quase cobrindo os culotes; bolsos grandes, largas mangas com punhos extravagantes virados para fora e nenhuma gola. Tinha uma saia de fendas e pregas nas costas e do lado, sustentadas por crina. Era comum colocar arame na bainha para que ela ficasse erguida para fora. Na segunda metade do século, as pregas da saia diminuem e a frente se abre amplamente depois do último botão, com as abas indo para trás.

Sobreveste (justaucorps)

A veste tem tecido ordinário nas costas e tecido rico na frente e na ponta das mangas, era tão longa quanto o casaco e abotoada por toda a frente. Embaixo da veste, o homem vestia uma camisa branca com babados de renda no punho e na frente. Um cravat de renda era usado no lugar da gola até 1735. Depois, um stock (uma tira de tecido rígida) era usado, às vezes com uma tira preta chamada solitaire. A veste podia ser usada aberta pra mostrar a renda da camisa.

O culote  (breeches) ia até os joelhos, fechado por botões ou laços. À medida que a veste encurta, o cós do culote sobe, sendo necessário o uso de suspensórios. Meias de seda brancas ou coloridas eram enroladas no topo dos culotes e presas com uma liga.
Para roupa informal e entre os homens da classe trabalhadora um casaco chamado frock (frock coat) era usado, menos rígido e com uma gola pequena e virada.

Sobreveste e veste em destaque, 1745.

Mudança de Formas
No decorrer do século, tanto a saias do casaco quanto a veste se tornaram mais estreitas. A veste ficou mais curta, perdeu as mangas e ganhou o nome de colete (gilet) com pontas triangulares.
O casaco (justaucorps) se tornou mais justo. A partir de 1730, a frente se curvava para trás pra mostrar os culotes e podia ser abotoado somente até a cintura. Era incomum vê-lo todo abotoado.
Os culotes eram cortados justo às pernas, formando uma silhueta mais magra. 


O redingote, peça originária da Inglaterra (riding coat) é uma nova peça de roupa, inicialmente usada pra vigem ou esporte, aos poucos se torna peça de uso diário.



Chapéus e Perucas
As perucas diminuem de tamanho comparadas ao século anterior. Podiam ser estufadas com crina. Alguns homens usavam-nas mais pra trás cobertas por seus próprios cabelos na frente. O talco disfarçava a união do cabelo falso com o verdadeiro. Lá por 1715, as perucas eram empoadas, longas e com cachos de diferentes disposições na frente e nas laterais, com os cabelos caindo dos dois lados do rosto. Como isto era inconveniente, adotaram-se perucas mais curtas com o cabelo amarrado em tranças atrás. Em casa ou nos locais de trabalho os homens tiravam as perucas e vestiam pequenos toucados bordados. 
Neste período, o tricórnio era o chapéu adotado. Grande, com abas ondulantes e pala revirada a partir de 1730. Depois, diminuiu de tamanho e variou nos formatos, sendo decorado primeiro com penas e depois com um debrum. Era sempre levado sob o braço para evitar que o empoamento da peruca saisse. Chegou-se a fabricar tricórnios próprios para serem carregados e nunca usados.


Em casa
Dentro de casa, especialmente durante a manhã, os homens usavam um vestido solto chamado banyan sobre os culotes e a camisa. Eram feitos de seda e às vezes ricamente bordados. No inverno, eram acolchoados. Escritores e artistas são comumente mostrados em retratos usando um banyan e um toucado, um estilo que se tornou associado à atividade intelectual. 

banyan, 1760.


Fonte de Pesquisa da autora:
História do Vestuário no Ocidente
The Eighteenth Century
A Roupa e a Moda

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Banhistas da Era Diretório


A imagem acima é um cartoon publicado entre 1810-1815 que ilustra jovens banhistas da era diretório. Os homens usam calção curto e abotoado. A mulher está usando um traje específico para o banho na altura dos joelhos.
Se esta ilustração foi inspirada numa cena real, mostra um lado pouco visto e comentado desta época e porque não, revolucionário. Os elegantes calções masculinos; a presença feminina num momento tão "pouca roupa em público junto aos homens" juntamente com o fato de o elemento água e mulheres sempre terem sido cercados de superstições.

 Me veio à mente as seguintes questões:
- já havia um traje de banho masculino nesta época? Se sim, ela era bem ousada quando comparamos com os trajes de banho do século XIX.
- a imagem é fantasiosa?
- seriam estes trajes pertencentes à famosa juventude rebelde da época, os Incroyables et merveilleuses?
- seria um traje experimental?

Acredito - baseado em muita coisa que li - que imagens não devem ser consideradas verdades supremas em história da moda e da arte. A elite e suas roupas sempre eram melhoradas nas obras (assim como hoje nos photoshopamos); há cartoons irônicos e satíricos que são divulgados em sites e blogs como se fossem fatos reais; há diversas roupas históricas em museus que se revelam bem mais "simples" do que pareciam ser nas obras de arte e imagens (desenhadas) de época...

Vocês tem mais informações sobre a existência deste tipo de trajes de banho nesta época?  


Fonte: https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Le_Supreme_Bon_Ton_15_Les_Nageurs.jpg 
também publicado em La Revolution Française Images et récit. 1789-1799 de Michel Vovelle, 1986.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O que é e como fazer hip-pads de 1770-1795 (molde)

Hoje vou ensinar a fazer um molde do que é chamado de hip pad (ou hip rolls) destinado à dar suporte às roupas informais do século XVIII. 
O hip pad nada mais é que duas almofadinhas acolchoadas presas nas laterais dos quadris. Eles eram de tecido (algodão, linho) e enchidos com cortiça, lã, retalhos ou crina.
Hip pads remanescentes são raros, na minha rápida pesquisa encontrei apenas uma imagem de um que está no Museu de Belas Artes de Boston, feito de algodão ou lã e recheado com lascas de madeira e com tiras de lã. As medidas dele são 5.6 x 14 x 26 cm.

Quando falamos em moda feminina do século XVIII, logo nos vem à mente os paniers que davam volume lateral aos quadris. Apesar destas formas extremas serem características da época, no fim do século, com a popularização dos estilos campestres e informais da moda inglesa na França (lembram do meu robe a l'anglaise?), é possível observar uma variedade absurda de formatos e volumes de saia a partir de 1770 conseguidas através de hip e bum-pads colocados estratégicamente nos quadris. A silhueta da época ganhou circularidade, embora ainda houvessem paniers para os trajes formais. Essa silhueta arredondada no quadril permaneceu até meados de 1790, quando iniciou-se a Era Diretório.

Eu considero os hip pads super úteis pra quem quer fazer um figurino informal, campestre ou matutino do século XVIII. Acredito que em certos casos não é necessário a pessoa usar métodos autênticos de suporte para as saias, especialmente se for pra um trabalho de releitura ou num evento revivalista em que usará o traje apenas uma vez. O que é essencial, a meu ver, é conseguir a silhueta adequada e ter um conhecimento básico sobre a época da roupa.

O hip pad que ensinarei o molde agora pode ser usado como suporte de saias do período de 1770 - 1790. Abaixo, algumas obras de Michel Garnier em que se pode supor que as moças usavam hip-pads. Reparem que todas as cenas são informais e caseiras. Estas obras se situam entre fins da década de 1780 e começo de 1790. Clique pra aumentar.


*O molde está desenhado no papel quadriculado apenas pra mostrar pra vocês o passo a passo. O meu molde já foi feito meses atrás e eu simplesmente não me liguei de fotografar o processo! Então façam os seus em papel craft, jornal ou outro papel que usam pra molde.

Molde:
1. Meça com a fita métrica apenas a metade lateral de seu corpo num ponto um pouco abaixo da cintura e divida este valor pela metade. Chame de medida X (a minha deu 17,5).

2. Estude o traje que quer replicar e estime o comprimento (parte que "sai pra fora") do hip pad (eu usei 16cm). Adicione 6cm
à medida e chame de medida Y (a minha deu 22cm).

3. Use a medida Y como vertical e a X como horizontal e risque um retângulo.


4. Da letra Y, desça 6cm na linha e marque a letra A. Risque uma linha reta para auxiliar na futura curva que faremos aí.


5. No topo direito do retângulo coloque a letra B. Faça uma curva suave ligando A - B (com régua curva ou à mão livre).



6. Usando a medida X (a minha era 17,5), meça na linha A-B esta medida (usando fita métrica ou uma régua flexível) e marque a letra C.


7. Faça uma curva suave ligando C - D encostando nas bordas do retângulo.

Esqueci de escrever a letra D no papel; é à esquerda, na linha do X ;-)


8. Está pronto!
Lembrando que este é metade do molde, para o molde todo, basta carretilhar a linha do pad, desdobrar o papel e traçar do outro lado. Assim o molde fica inteiro e basta riscar no tecido. Não esqueça de quando passar pro tecido
adicionar 2cm para costura.


Você pode ver dois tracinhos no molde, é a parte que você deve deixar aberta pra poder colocar o enchimento. Depois de encher, basta costurar a abertura.

Enchimento:
Pode ser retalho, lã, esponja de almofada... eu usei manta acrílica.
Existe manta acrílica já cortada em pedacinhos mas eu comprei por metro (é mais barata), rasguei pedaços e fui enchendo...


As tiras de amarração você que decide qual o melhor comprimento pra amarrar em torno de seu corpo. Fiz com o próprio algodão cru.


Não deu pra eu tirar fotos usando os meus, mas no blog The Pragmatic Costumer tem um post com a moça usando. Ela os fez para um vestido colonial. Link abaixo das fotos.
crédito das fotos: http://thepragmaticcostumer.wordpress.com/2013/08/19/commercial-colonial-undergarments-supporting-a-slightly-more-historical-simplicity-3723-part-3/

Até a próxima! ^-^

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Revivalismo Histórico, Living History e Historical Reenactment: Diferenças!

Nas quatro últimas postagens, apresentei pra vocês artigos que escrevi neste ano para o site do Picnic Vitoriano SP. Vou indicar mais um último artigo agora. 
Recentemente no Brasil, surgiram grupos de Revivalismo Histórico que aos poucos tem conquistado público e espaço. Mas ao redor do mundo, existem além de grupos revivalistas, grupos de Living History e Historical Reenactment. O que são eles? Quais as diferenças entre cada proposta?
Convido vocês a darem uma passada no post, clicando no link seguir:

Revivalismo Histórico (foto Picnic Vitoriano SP):
Recomendo também a leitura desta matéria na Folha: http://folha.com/no1279978

Historical Reenactment:
 


 Living History:



Qual a diferença entre Reprodução, Réplica, Cópia e Releitura de trajes?

Você sabe quais são as diferenças? 

REPRODUÇÃO: Todas as medidas do modelo original (no caso, a roupa), assim como tecidos, materiais e técnicas, são seguidas à risca. Se uma peça foi feita à mão no século XIX, a reprodução também precisa ser feita à mão. Essas reproduções são mais comuns em museus de moda ou entre entusiastas da fidelidade histórica.

Costurar à mão é regra entre entusiastas de reproduções históricas


RÉPLICA - Embora alguns considerem sinônimo de reprodução, a réplica permite modificações nas medidas, tecidos, materiais (com inovações tecnológicas) e técnicas.
Ex: Se um vestido foi feito em linho na cor verde, é possível fazê-lo em algum outro tecido ou em outra cor. Se foi feita à mão antigamente, hoje pode ser feito à máquina. No exemplo abaixo, réplicas de trajes da loja Josette Blanchard Ateliê.


CÓPIA - É como uma réplica. Porém pode ser aplicada a produtos feitos em massa ou por muito tempo, como os corsets. Fazer stays elisabetanos e rococós ou corsets vitorianos hoje, é fazer cópias das peças do passado.

Stay atual

RELEITURA - É a atualização de uma peça ou de um estilo. Uma roupa do século XVIII pode ser relida e reinterpretada de acordo com a visão da pessoa sobre aquela época.
Abaixo, duas releituras da loja Dark Fashion: uma blusa masculina inspirada na Era Medieval e um corselet inspirado na Era Vitoriana.


Post escrito originalmente para o site Picnic Vitoriano SP. Link [aqui].

Reprodução de Trajes Históricos: Dicas!

Como devem ter lido no post anterior, fiz um post em parceria com o Picnic Vitoriano SP sobre 7 erros a serem evitados na reprodução de trajes históricos. Assim que finalizamos o post, já fiz outro com as dicas básicas e essenciais pra fazer trajes.
Na verdade, os tópicos não diferem muito do dos "7 pecados", porque fiz meio que "o lado certo dos tópicos abordados" e também porque não tem como fugir óbvio quando se cria roupas de época: silhueta + tecido + acessórios. 
Lembrando que estas postagens foram criadas voltadas à pessoas que gostam de participar de eventos revivalistas - existem vários no Brasil - mas podem ser úteis também pra quem gosta de figurino ou roupas antigas.

Silhueta
É a primeira coisa que você tem que observar na roupa e o que define as épocas.
- Veja de que data é a roupa e pesquise muito sobre a época.
- A roupa precisa ter a forma característica da época e isso muitas vezes é conseguido pela underwear, então as roupas de baixo são tão importantes quanto as roupas de cima.
- Cintura: repare onde é a cintura da silhueta. Um pouco acima, um pouco abaixo... No caso feminino 1804 era logo abaixo dos seios; em 1830 alguns centímetros acima da cintura e em 1860 era exatamente no lugar.
- Como era o busto? Coberto, decotado (em qual formato?), achatado, ultra decorado?
- Ombros e mangas?
- Comprimento da saia? Longas, no tornozelo?
- Formato das calça ou altura delas?
- Meias?
- Babados, bordados? (também representam épocas) 

Moldes: os moldes antigos eram um pouco diferentes dos atuais porque os corpos e silhuetas em voga eram diferentes. Então, o ideal é encontrar um molde da época em que seu traje foi feito para ter como referência. Algumas buscas na internet podem te redirecionar à algumas imagens deles. Se você mesmo não for costurar o traje, repasse a imagem do molde à sua costureira, ela vai interpretar. 

Dicas:
-Note seu tipo de corpo e veja com qual época ele se parece independente de tal época ser sua preferida. Provavelmente você terá mais facilidade em acertar na silhueta do traje já que seu próprio corpo se assemelha à ela.
- Proporção: no caso de reproduções do século XIX, repare no tamanho dos aros da crinolina e do bustle em relação à seu tamanho e figura. A proporção é algo que pode ser legal levar em consideração quando se faz um traje.
- Se você quer criar a ilusão de uma cintura pequena, deve projetar os ombros e quadris no traje.
- Os trajes masculinos a partir da Era Vitoriana são muito parecidos com os trajes sociais atuais, então essa é uma época relativamente fácil de reproduzir.


Corsets
Como escolher o seu modelo de corset?
Compre um modelo da época que você quer reproduzir o traje. Envie uma imagem de seu traje para sua corsetmaker e conversem  sobre o assunto.

Como era o modelo de corset de sua época escolhida? Eram abertos na frente, atrás ou na lateral? Qual é o formato dele e dos corpetes que eram usados por cima? 

Se não tiver interesse em ter um corset de uma época específica, opte por um modelo simples e básico que possa ser usado pra tentar reproduzir várias épocas.

Atenção: em cada época o corset tinha uma função; o Tight Lacing - técnica de diminuição da cintura através de corset - foi praticado durante o século XIX e por poucas mulheres. A cintura da maioria das mulheres da época era em torno de 60cm, um tamanho normal de uma mulher tamanho P. Era a amplitude das saias que dava a impressão de cintura menor.


Tecidos
Pesquise o tecido usado no traje escolhido. Se não houver a informação na imagem de referência, pesquise que tecidos eram usados naquela época. Provavelmente serão tecidos naturais pois não haviam sintéticos. Se não puder  ou não quiser pagar tanto, é possível encontrar tecidos sintéticos similares bem baratos, mas tente escolher aqueles com aparência mais "rica", de melhor qualidade. Por exemplo, se escolheu uma peça que era originalmente de tafetá de seda (seda é tecido natural), escolha um tafetá sintético, mas pesquise as variedades pois existem diversos tipos de tafetás sintéticos e de diversas qualidades. Use a sensatez para escolher o que mais se parece com o traje escolhido.

Acessórios
Seu traje está incrível mas você simplesmente prende o cabelo pra trás. Ou, no caso dos homens, usa seu cabelo "ao natural". Não deixe para planejar os penteados e acessórios na última hora. Penteados, chapéus, barba/bigode, luvas, leque, sombrinha, calçados, brincos, colares e até mesmo a maquiagem também definem épocas.

Dicas:
- Seu cabelo não permite penteados? É muito curto ou tingido em cores fantasia? Opte por perucas.
- Bigodes e barbas falsos são opções para os homens.
- Abaixo uma imagem de diversos tipos de chapéus masculinos do século XIX.




Peças Básicas
Algumas peças básicas que você pode ter para compor um traje histórico:

Mulheres:
1 espartilho - básico e com um corte "neutro" que servirá pra muitas épocas;
2 anáguas (dão volume e evitam que o tecido entre nas pernas);
1 chemise branca (servirá como underwear de várias épocas);
1 bloomer/pantalette (além de volume, protege as pernas do atrito com as armações de saia;
1 meia calça branca (a partir da Era Medieval, as pernas estavam sempre cobertas com meias).

Homens
1 chemise branca (servirá como underwear de várias épocas);
1 camisa branca (poderá ser usada para século XVIII e XIX);
1 colete de alfaiataria (para reproduções do séc. XIX) ou um colete de brocado para século XVIII;
1 calça social (para reproduções do séc. XIX);
1 meia calça (dependendo da cor pode ser usada na era medieval, barroca ou rococó);
1 chapéu.
  

Erros a serem evitados ao criar um Traje Histórico

Se houvessem 7 erros que você não deveria cometer ao tentar criar um traje histórico, quais seriam eles? Leia um post sobre o processo de desenvolvimento desta idéia.

No começo do ano, um amigo meu, organizador do Picnic Vitoriano SP, disse que queria fazer uma brincadeira de "7 pecados revivalistas".
Pra quem não sabe, existem alguns grupos de Revivalismo Histórico no Brasil. São grupos de apreciadores de períodos que vão da Idade Média à Era Eduardiana que realizam uma série de atividades (picnics, chá das cinco, saraus, passeios fotográficos etc) abertas ao público em geral. Eu participo de dois grupos auxiliando em textos e dúvidas sobre história da moda.

A organizadora do Picnic Vitoriano SP Priscilla em ótima réplica de traje de Amélia de Leuchtenberg.

Pra colocarmos a idéia dos "7 pecados" em prática, nos baseamos em nossos conhecimentos (ambos já estudamos Moda) e experiência com estes eventos. Criamos uma lista do que seriam os "7 pecados" como segue a conversa abaixo:

desenvolvendo a idéia; mantendo metade das identidades ;-)

A partir disso, fizemos um resumo dos principais ítens no post e partimos em busca de algumas consultas e pesquisas extras. Durante minha pesquisa, vi que um site de reprodução de trajes [este], havia abordado também o tema de erros em trajes. Fiquei preocupada por ser uma ideia muito semelhante mas ao mesmo tempo sossegada porque significou pra mim que nós não estávamos tão viajantes assim no tema e não seríamos tão "agressivos" ao lançar um post desse tipo já que algumas pessoas poderiam achar ruim a gente apontar erros. Mas saber os erros comuns tem se revelado fundamental pra montar um bom look. Essa semelhança de temas entre os sites me fez lembrar de algo que eu já tinha observado na questão de História da Moda:
A História da Moda está aí, escrita em livros, embora cada autor tenha sua visão e algumas versões hipotéticas de algumas épocas, no geral, nada muda muito. Se você quiser falar sobre os tipos de robes que existiam na Era Rococó, você vai encontrar diversos textos na web falando sobre isso, o que muda é a sua abordagem. Eu direto caio em blogs estrangeiros de história da moda com textos baseados em livros que tenho, e aí pra gente abordar o mesmo tema, consultando o mesmo livro, tem que se virar pra contar a mesma história de forma diferente. Ter a mesma ideia, ainda mais num nicho tão específico é comum, como em história da moda, certas informações são "fixas" e não tem como mudá-las, o jeito é recontar da sua forma.

Pra este post em questão, dos 7 pecados revivalistas, busquei também informações no meu acervo acadêmico de figurino e principalmente na experiência própria de fazer roupa e nas aulas da faculdade. Lembro de uma professora falando da "silhueta, a importância da silhueta"... nossa, nunca saiu da minha cabeça "a importância da silhueta" em história da moda e os artifícios (underwear) usados pra torná-la real. A seguir, veio as aulas de "desenvolvimento de coleção": a importância de escolher os tecidos certos pra fazer a roupa cair como você quer. A partir daí,  pensar na roupa e em todos seus adereços. A silhueta é importante, a underwear é importante, escolher o traje adequado pra cada momento é importante. Foi baseado nisso que mudei a ordem de importância dos erros sugerida na conversa com meu amigo. 

Lembro me que, assim que publicamos o link post no facebook, uma moça comentou que "corsets eram usados por cima da roupa sim!". Na verdade, no século XIX, na chamada "cintura suiça", eles se assemelhavam mais a corselets e as mulheres usavam corset por baixo daquele traje mesmo assim, porque como vimos [neste post], os corsets naquela época também funcionavam como sustento dos seios.

Então, eu mais ou menos pus a ordem de importância assim:
1º Pecado: Silhueta histórica incorreta
A silhueta deve ser a primeira coisa observada por você num traje histórico.
Se você acha que é um pouco difícil criar silhuetas históricas muito diferentes do seu biotipo, procure escolher uma silhueta histórica que seja semelhante à sua silhueta natural. 

2º Pecado: Corset por cima da roupa/underwear inadequada
Não é apenas a silhueta que faz uma roupa parecer autêntica mas também o uso adequado das roupas de baixo. O corset (espartilho), por exemplo, é underwear e lingerie. Corsets usados de forma aparente só foram assim usados a partir do fim do século XX pelas subculturas. As crinolinas, paniers também são underwear e dão a forma correta da silhueta.
 
3º Pecado: Escolha incorreta de tecidos/estampas
As referências em trajes revivalistas costumam ser da elite, sendo assim os tecidos costumam ser de ótima qualidade. Se você tem pouco dinheiro, não se preocupe, basta procurar um bom tecido com preço acessível. Embora antigamente não existissem tecidos sintéticos, atualmente há sintéticos de boa qualidade que não parecem tão sintéticos assim e podem ser usados pra réplicas. Na dúvida, opte por tecidos naturais. 

4º Pecado: Falta de ornamentação
Acessórios eram muito importantes antigamente, algumas vezes usados até dentro de casa. Eles definiam até mesmo a classe social das pessoas. 

5º Pecado: Cabelos e/ou maquiagem em desacordo
Se não puder ou não encontrar um chapéu, peruca ou algo que represente o período histórico escolhido, faça um penteado simples próximo ao da época escolhida.

6º Pecado: traje noturno x traje diurno x traje passeio x traje chá
Se hoje nós  usamos apenas uma roupa um dia inteiro, imagine que na Era Vitoriana houve até oito trocas de roupas! 

7º Pecado: Reconstituição histórica confusa
O que consideraríamos um traje confuso? Misturar épocas diferentes como a parte de cima vitoriana e a de baixo medieval ou misturas de muitas épocas num mesmo traje.

E o texto completo? 
Não compensa eu reproduzir ele todo aqui, então gostaria que visitassem o seguinte link no site do Picnic Vitoriano SP pra ver o resultado:



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Como fazer um Bustle (molde + dica).

Fiz esse post pensando nos eventos revivalistas que acontecem no Brasil. O Chá de 2013 do Picnic Vitoriano SP será sob o tema vitoriano e é muito comum as pessoas não saberem como fazer a underwear da época, tão necessária pra dar a silhueta correta. 
Dada a facilidade que é confeccionar um bustle, a questão de que há algumas pessoas interessadas em fazer um e o fato de que não encontrei nenhum tutorial em português, decidi oferecer um molde histórico e dar uma dica acessível ao bolso. 
Na verdade essa "dica" dá pra  fazer todo tipo de armação de saia, desde farthingale, pannier, crinolina...
A dica é: mangueira de plástico. Isso mesmo! Muita gente desiste de fazer armações de saia porque não consegue a fita de aço. Então, não desistam, usem técnicas alternativas!

Bustle e traje da década de 1870

Fiz esse bustle exclusivamente pra mostrar a técnica pra vocês.

Molde Histórico:
O molde é especificamente do ano de 1874.
A Era Vitoriana teve duas fases do bustle. A primeira foi na década de 1870 eles eram amarrados na cintura e tinham um caimento suave. 
A foto abaixo, com o molde, é ampliável. Nela vocês podem ver as medidas que usei no bustle, basta reproduzir em papel craft, jornal ou outro papel que você tenha à disposição para fazer molde.

Medidas:
Aba lateral: 80cm de altura; 19cm topo; 8cm na barra; faça leve curva vertical na altura do quadril.

Pano central: é colocado dentro do bustle protegendo-o de seu quadril e pernas e segurando a forma. Muitos bustles não tem esse pano, tem apenas amarrações em tirinhas. Altura 80cm; topo 9cm com descida central de 1,5cm; barra 20cm

Bustle: Altura: 80 cm. Anca: 12cm no topo (cintura) com leve subida central de 2,5cm; 45 cm na extremidade inferior (barra). Ligue por uma linha reta. Distância entre os aros: 7,5cm no primeiro e 14,5 cm nos seguintes. Faça, no segundo arco, uma linha levemente curva (será colocado mangueira/fita de aço aí também. É o local que "segura" a anca pra cima).

Não esqueça que o molde é metade e deve ser cortado duplo!

Clique ou abra em outra aba pra ampliar

Transfira o molde pro tecido - com todos os riscos dos aros. O tecido pode ser qualquer um que você tiver. Como este é um tutorial barato, eu sugeriria tricoline, sarja ou algodão cru. Tecidos naturais pra pele respirar embaixo. Não esquecendo de cortar uma tira pra amarrar ele cintura e tiras de viés com as medidas dos aros da anca.

Aqui entra a mangueira de plástico. Que deve ser encaixada nos aros seguras pelas tiras de viés. 
Nem todo mundo acha fácil ou consegue comprar metros e metros de fita de aço para investir em underwear de época. Vá na loja de ferragem de sua cidade e compre a mangueira mais rígida que tiver. Aquelas de gás costumam ser as mais duras de todas mas eu optei por uma mangueira transparente, chamada cristal. Esqueci de contar certinho mas usei em torno de 5metros, então, comprem mais do que isso.


A desvantagem da mangueira
Bom, não é fita de aço então é bem possível - e provável - que com o tempo seu bustle ou crinolina, vá entortando ou "desabando" se você colocar muito peso em cima ou largar no armário de qualquer jeito. Mesmo as mangueiras sendo rígidas, elas vão deformar um pouco sim, é inevitável. Mas assim que você estiver apta a comprar as fitas de aço, basta fazer a substituição.


Resultado final: 
Perdoem-me se as fotos não estão com qualidade, eu estava sozinha e tive que me virar com a máquina no automático, o que não foi nada bunito! Assim que der pretendo mudar as fotos pra umas de qualidade melhor. Mas se vocês entenderem a idéia, já tá valendo!

Como meu traje vitoriano ainda está sendo feito (mas não será de 1874), usei uma saia preta, neutra e longa pra mostrar o resultado final. 
Na segunda foto, joguei a saia por cima. A saia é moderna e justinha no quadril, o ideal é usar uma saia mais solta em cima, com pregas (como era na época) pra que não ocorra um achatamento, já que qualquer força contrária pode deformar a mangueira.
Ainda observando a foto com a saia por cima, vejam que a silhueta ficou muito próxima da de 1874. O que falta pra incrementar o volume traseiro são os babados e pregas na saia - como era na época - para aumentar ainda mais a ilusão de volume.

* Tem modelos de bustle com babadinhos na barra, como fiz esse na rapidez, não fiz os babadinhos. 

A saliência das mangueiras é mais visível (na primeira foto da montagem abaixo) do que seria se fossem tiras de aço. Por isso, é interessante que a pessoa use por cima uma anágua (número 1), pra disfarçar as mangueiras. Se não puder, faça uma meia-saia de babados de tule/filó e jogue por cima, já disfarça bastante - recomendo que seja com maior quantidade de tule do que a ilustrada abaixo (número 2).


Esta dica de bustle feito com mangueira não é pra quem é historicamente purista e quer fazer tudo igualzinho como nos antigamentes. Esta é apenas uma dica barata e rápida de fazer uma armação de saia de época para uma roupa que você vai usar uma ou duas vezes e não quer gastar muito.
Não criem empecilhos na hora de criar trajes, improvisem, usem a criatividade. O importante é se divertir!

* Como o molde acima é de 1874, se você quiser usá-lo para um traje da segunda era do bustle (1880s), basta vesti-lo mais na altura do quadril e/ou fazê-lo com uma medida maior horizontalmente no topo da anca. Se desejar, pode acrescentar também uma almofadinha no topo para enfatizar a forma de "lobster tail" característica daquela década.

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NOTA AOS LEITORES


Olá, tudo bem?
Fico feliz que tenha chegado até aqui! Infelizmente não consigo responder todos os leitores com devida atenção. Me perguntam sobre livros que uso nos textos estão, eles listados neste link: https://modahistorica.blogspot.com.br/p/livros.html

Alguns textos foram escritos entre 2009 e 2013, num período que eu não anotei as fontes, por isso eles não as tem. Portanto, quem me escreve cobrando as fontes destes artigos, espero que compreendam que não posso colocar uma fonte que não lembro ao certo/exatamente qual foi, indicando algo errado. MAS os livros que uso estão no já citado link - pra quem quiser ir atrás deles. Sei que professores e orientadores lhes cobram fontes e nada melhor que ler livros pra adquiri-las.


A quantidade de emails e comentários é grande e soaria repetitivo e cansativo eu responder isso a um por um dos leitores. Gostaria que essa cobrança que às vezes vem como crítica, ficasse mais amena através da compreensão, pois quando comecei o blog não sabia que se tornaria tão grande e que viraria referência no Brasil.
Agradeço a compreensão (e os elogios ao blog).
Sana ♥