quarta-feira, 25 de setembro de 2013

La Mécanique des Dessous: Uma História Indiscreta da Silhueta

Hoje é comum o debate de quais peças de roupa deformam e quais não deformam o corpo buscando uma silhueta mais natural. Mas, "silhueta natural", existe?
No texto abaixo vocês verão que por séculos as roupas íntimas femininas e masculinas usaram de dispositivos para modelar o corpo e atender às exigências da moda vigente. Dá-se a impressão de que o corpo humano e sua consistência, nasceu mesmo pra ser deformado e moldado de acordo com cada época. 

O post é sobre a exposição "La Mécanique des dessous - Une histoire indiscrète de la silhouette" que está atualmente no Musée des Arts Décoratifs em Paris, de 5 de julho à 24 de novembro de 2013. São 200 peças, entre originais, reproduções e réplicas que ilustram as mudanças da silhueta através dos tempos.


Moda, corpo e transformações medievais
É comum ler em livros sobre a história do traje que a Moda foi inventada na Idade Média, especialmente no século XIV. Não pelo aparecimento de uma nova forma de se vestir, mas por uma consciência mais concreta da silhueta e mais ainda com a ideia de fazer um corpo fabricante de vestuário. Assim, o corpo natural não existe, é um organismo cultural, projetado por uma silhueta característica de um momento.
Na Era Medieval, no guarda roupa feminino, o bliaud (que aparece no fim do século XII) é um vestido longo, amplo, ajustado ao corpo por laços na frente ou nas costas - ele suportava e elevava os seios. A peça aqui e ali cria um novo corpo. 
A silhueta do homem medieval desempenhou um papel decisivo na história da silhueta ocidental. Na segunda metade do século XIV, doublets (gibão) e cotehardies, projetavam partes do corpo através de acolchoamento. Estas curvas davam uma forma diferente, falsificando o corpo de original. Estes são os primeiros exemplos documentados da construção formal da silhueta dos homens.

O mundo masculino e sua busca pela masculinidade são discutidas na exposição com o exemplo de peças acolchoadas do XIV ao século XVI, bem como os codpieces proeminentes da Renascença.

Gibão de Charles de Blois, século XIV


Gibão e codpiece Renascentistas

O século XVIII é caracterizado pelos casacos acolchoados e estruturados que deixavam o torso arqueado, sinônimo das classes superiores e da realeza.
Os homens de classe média e alta do começo do século XIX vestiam espartilhos ou peças que imitavam espartilhos para marcar a cintura e se promover em status, a peça era traje a rigor para oficiais do exército. O espartilho masculino era chamado de "cintas", "cintos" ou "vestes", já que a palavra corset soava muito feminina. Abaixo, um exemplo de cinta da época.

 Justaucorps de 1730-1740 e cinta masculina do começo do século XIX


Corps à baleines (Stays) e paniers: a mecânica do século XVIII
Madame de Genlis relatou em 1818, que a elegância do século XVIII exigia, "apertar os excessos em um corps à baleines (stays), usar um panier de três metros e andar sobre chopines".
A mulher do século XVIII, tinha uma silhueta única, quase inteiramente recriada por sua underwear. Os stays e paniers modelavam sua figura para atender aos padrões de beleza da época. Essa reformulação do corpo oferecia contornos femininos que podem ser descritos como abstratos, já que tendiam eliminar as linhas naturais. Os stays provocavam uma retidão corporal, uma verticalidade como era esperado da aristocracia e da burguesia poderosa consciente de sua superioridade .

Os stays e os paniers são mais complexos do que outros acessórios essenciais para a construção da silhueta da moda, pois eles impunham ao corpo feminino uma manutenção que foi criticada na sociedade do Antigo Regime. As classes privilegiadas aproveitavam desta distinção conferida pelo traje e não é surpreendente neste contexto, que uma das primeiras coisas da Revolução foi renovar o traje francês do final do século, alegando que "as roupas de ferro são invenção dos bárbaros e dos séculos góticos. Você deve quebrar estas correntes se quiser ser livre e feliz".

Stays de 1770-1780; Paniers de 1775-1780

Traje de Corte de 1760: os paniers mais amplos eram eram geralmente reservados para
ocasiões formais grandiosas. 
 

Estas roupas e robes como o à la française e o à l' anglaise foram usadas por mulheres de classes burguesa e nobre. Depois da Revolução Francesa tornaram-se símbolos de um passado vergonhoso e desapareceram da moda. Napoleão tomou as rédeas da França e uma silhueta mais fluido surge: a silhueta Império.


O final do século XVIII e a invenção da fluidez
Esbeltez e fluidez entraram na moda do final do século XVIII. A exigência imposta é "libertar". A imagem do futuro cidadão são "formas de liberdade para uma maior liberdade de ser".

*Os Stays foram chamados de "armaduras civis" durante a revolução francesa.
 
Os stays do fim do século XVIII e começo do século XIX são muito mais leves 
que os usados até então.


O retorno da rigidez
Com a restauração da monarquia na França, a rigidez tradicional em relação às mulheres recupera sua antiga legitimidade. O espartilho reafirma-se e
na década de 1820 grandes mangas bufantes acompanham uma saia em forma de sino.
Mangas enormes e bufantes: havia uma underwear pra sustentá-las.


As novas formas
Em meados do século XIX  um objeto de formato elíptico enfatiza a parte traseira - a crinolina.
 
Algumas crinolinas da exposição

A partir da década de 1870, os vestidos se "estreitam" e se ajustam, os quadris se arredondam com as tournures/crinolettes.
Na década de 1880, o bustle deu às mulheres uma silhueta de "ganso" num perfil sinuoso. Esta forma combinada com o espartilho acentuando o peito e cintura criou uma representação altamente idealizada da identidade sexual feminina. Quanto maior o bustle, maior sua posição na sociedade. 


Os espartilhos mais ajustados tornam o contorno do corpo mais exposto, a firmeza anatômica feminina aparece e até o fim do século o excesso de roupas vai desaparecendo. Assim, a mulher ganha magreza e mobilidade.
No século XIX, corsets amarrados na frente indicam as classes mais baixas da sociedade, pois estas não podiam se dar ao luxo de ter a ajuda de servos para vestir-se.

A beleza da época pedia quadris arredondados, por isso os corsets formavam uma curva na ponta de baixo, deixando cintura e barriga no formato da moda vigente.


O início do século XX se caracteriza por uma mudança radical na underwear: a eliminação do espartilho.


Sutiãs, espartilhos e combinações a partir de 1900
No início do século XX, a roupa íntima feminina experimentou mudanças sem precedentes. Depois de séculos de espartilho, a roupa interior moderna aparece com o advento dos primeiros sutiãs. Assim, o século XX é caracterizado pelo desaparecimento do espartilho, ligado ao surgimento de um novo modelo de mulher: a mulher ativa.
 

Como vocês leram no post "A Moda e o Tempo: Mulheres Vitorianas", no começo do século XX, a silhueta feminina exigia "peitos de pomba". E as mulheres sem busto generoso, usavam uma underwear que dava mais volume à região. 

Vale lembrar que no ínício do século XIX, os primeiros exemplos do que viria a ser o sutiã não tinham a intenção de juntar ou empinar os seios e sim, mantê-los separados. Entre 1915 e 1925, a silhueta que domina é das mulheres que procuram um visual andrógino. O corte dos sutiãs da época são adaptados para construir esta nova silhueta. Para as mulheres com seios muito volumosos, uma das soluções mais radicais é o sutiã de redução, que comprimia e reduzia o volume dos seios.


Sutiã, 1925



Apertando o cinto
A partir do final de 1940, há um retorno aos espartilhos. Em 1947 Dior lança o "New Look", uma silhueta baseada em cintura muito fina, quadris estreitos e busto arredondado. Os atributos tradicionais das mulheres são novamente destacados, mas altamente estruturados. Os corselets da época tem um sutiã acoplado à uma estrutura de metal e taças estruturadas.

Underwear de 1950; 1952; 1954

Anos 1960-1970: o fim do espartilho?
A década de 1960 viu o surgimento gradual de uma nova geração, a emancipação dos movimentos femininos buscava um novo modelo de silhueta: a mulher magra e andrógina. Os novos ícones são Jane Birkin e Twiggy. Consequentemente, a underwear se torna mais discreta, praticamente imperceptível. Novos tecidos, leves e que produzem uma certa  invisibilidade estão disponíveis. Em 1959 surgiu uma nova fibra, a  Lycra. Sua elasticidade e suavidade ajuda a reduzir a fronteira entre o corpo e a roupa. A invenção de tecidos elásticos mudou os materiais, mas não sua finalidade. 
Na década de 1970, a lingerie se torna minimalista e funcional.

1980: modernidade e historicismo
A silhueta da década de 1980 dá destaque à largura dos ombros e ao busto, desenhando um "V", em relação à cintura fina. O sutiã, ao contrário de outras vestes, torna-se símbolo de feminilidade, sendo as lingeries da estilista Chantal Thomass uma das principais referências estéticas.


O espartilho internalizado
O espartilho físico foi gradualmente substituído por um espartilho invisível, psíquico: a figura feminina desde o início do século XX cresceu, esticou e a magreza se tornou modelo estético. Esportes, dieta e mais recentemente a cirurgia estética agora esculpem os corpos e substituem o espartilho no chamado body sculpting. Em contraste com um corpo cada vez mais magro e atlético, surgiu a tendência de seios mais cheios. O modelo de sutiã Wonderbra lançado em 1994 é até hoje um símbolo da popularidade entre os sutiãs push-up, que unem e elevam os seios.

Seios unidos e elevados: anúncio do sutiã wonderbra


Cintas
Nos últimos anos, houve um surpreendente regresso do apoio interior. A lingerie retorna aos fundamentos que haviam sido ofuscados. As cintas, os corpetes e anáguas justíssimas retornam e mais recentemente um novo tipo de shapewear parece emergir: a chamada "lingerie cosmética".


Espartilhos e crinolinas na moda contemporânea
Historicismo

O renascimento do corset que vemos hoje não veio de repente. Os criadores de moda lentamente reviveram a peça nas últimas décadas. Christian Lacroix trouxe o espartilho na sua chegada à alta costura em 1981. O próprio designer admite uma certa nostalgia do século XIX. Barbatanas de baleia foram substituídas por metal e plástico em moldes que se mantiveram fiéis aos modelos do século XIX. 
Longe das criações de Lacroix está Vivienne Westwood. No início de 1980, o movimento punk da qual ela foi uma das pioneiras foi democratizado e ficou sem fôlego. "O antiestablishment se tornou norma e, portanto, inofensivo", diz ela. Assim, ela faz uma súbita mudança em seu trabalho. Depois de um ano estudando as ricas coleções do Museu Victoria and Albert em Londres, Vivienne surge com a coleção Mini-Crini, bebendo das fontes dos séculos XVIII e XIX de forma nada conservadora, pelo contrário, numa releitura de não-conformidade.

Futurismo 
No final do século XX, a instabilidade política em muitos países e crises econômicas sucessivas criaram uma desconfiança no futuro. Os designers dão um novo papel para a roupa: não só proteger o corpo, mas também para reparar. O estilista Thierry Mugler transforma a fragilização em materiais resistentes. Em 2007, ele vestiu um manequim em uma única peça de metal, moldados à forma de um espartilho e um farthingale.
Na estética futurista, o 
uso de materiais inusitados é recorrente entre os designers, alguns chegam a ultrapassar limites. Em 1980, Issey Miyake usa plástico moldado para fazer um corselet. Em tempos atuais,  Iris Van Herpen focou na alta tecnologia - projetou pela primeira vez um  vestido por computador e fez a impressão tridimensional de modelos em polímero. Atrever-se a propor uma nova silhueta, envolve um posicionamento radical do criador de moda.

Thierry Mugler, Issey Miyake e Thierry para D&G
A silhueta tecnológica de Iris van Herpen

No século XXI a underwear ganha releituras e vai pro "lado de fora" do corpo

As novas cuecas e as noções de masculinidade 
Os primeiros anos do século XX viram o fascínio com o conceito de masculinidade expresso através do design e promoção de roupas íntimas. 

 Cuecas de 1920 e 1940
 

O desenvolvimento da virilha e da virilidade pela cueca aparece ao longo da segunda metade do século XX, como o Scandal Reis (1943) que apresentava "uma nova virilha confortável e com mais apoio", e a cueca Kangaroo (1948) que anunciava: "Finalmente um deslizamento viril". 
Em 1993, a propaganda de Calvin Klein com Mark Wahlberg agarrando seus órgãos genitais chamando a atenção para o sexo, confirma a afirmação de Wolfgang Fritz Haug em 1986 que diz que "a compra de uma cueca é desencadeada pelo desejo de aumentar o pênis".


O século XXI viu o surgimento da cueca com um bolso frontal acolchoada, assim como o sutiã push-up. As cuecas do estilista Andrew Christian são tecnológicas e logo o após o lançamento receberam criticas negativas de pessoas conservadoras. Em 2007, a marca de underwear e swimwear Aussiebum Wonderjock criou - para atender a demanda dos clientes com um interesse em uma aparência mais vantajosa, tal como as mulheres que usam a Wonderbra - cuecas com uma tira de tecido reforçado sob a genitais masculinos, que os projeta para a frente. Os homens são mais tímidos do que as mulheres para falar abertamente sobre cuecas que simulam um aumento do orgão sexual, mas pode ser apenas uma questão de tempo, já que estas cuecas ganham a cada dia novas versões e mais marcas estão investindo na estética.

A underwear masculina investe em tecnologia "pelo desejo de aumentar o pênis"


Finalizando:
Qual será a próxima silhueta adotada por nós e quais mecanismos usaremos para impô-la?
A beleza do momento é moldada por dietas, musculação e cirurgias plásticas. Seios de silicone, barrigas de lipoaspiração parecem mais eficientes na moldagem do corpo do que o uso de uma underwear específica, como os sutiãs com bojo ou cintas compressoras. Mas as loucuras e absurdos que fazemos hoje na busca por um "corpo ideal" ou pelo "corpo do momento" não é muito diferente do que a mulheres e homens fazem desde o século XIV buscando uma "imagem perfeita".

Curiosidade:
Numa área da exposição os visitantes podem vestir réplicas de underwear histórica e sentir as peças no corpo. Em outra área acontecem cursos dedicados à montagem de corsets, paniers ou crinolinas, todos feitos de forma idêntica aos originais de modo que o visitante possa experimentar no corpo, suportar e compreender como estas estruturas desempenharam seu papel fundamental na a história da moda. 
  
Fotos: Flickr do Atelier Sylphe Corsets

Fonte do Texto: 
Catálogo da Exposição
http://www.lesartsdecoratifs.fr/francais/accueil-292/une-486/francais/mode-et-textile/expositions-70/actuellement-447/la-mecanique-des-dessous-une/
http://www.nytimes.com/2013/07/30/fashion/underneath-it-all.html?_r=2&

Fotos:
http://www.lesartsdecoratifs.fr/francais/accueil-292/une-486/francais/mode-et-textile/expositions-70/actuellement-447/la-mecanique-des-dessous-une/
http://www.flickr.com/photos/36932631@N07/
http://www.manager.co.th/Home/ViewNews.aspx?NewsID=9560000084646&TabID=3&
http://styleonthecouch.com/friday-lingerie-lust-the-mechanisms-of-underwear-a-history-of-the-figure-at-musee-des-arts-decoratifs-in-paris/
http://www.lambertandassociates-fashionofficeandtrendspotter.com/exhibition-la-mecanique-des-dessous/#sthash.LfVEK0hC.dpuf
http://paripolis.canalblog.com/archives/2013/07/06/27580459.html 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Moda Feminina no Brasil do Primeiro Reinado (1822-1831)

Este post escrito por mim, foi originalmente publicado no site do Picnic Vitoriano SP há um ano atrás. Foi um resumo super breve e de fácil entendimento da Moda Feminina no Primeiro Reinado (1822-1831) direcionado aos frequentadores dos eventos do PVSP.
Há poucos meses consegui um material ótimo sobre a Moda Feminina no Primeiro Reinado e a influência do pintor Debret. Em breve vou postar este material aqui (é muita coisa então preciso de um tempo pra resumir) enquanto isso, vocês podem clicar no link logo abaixo ao texto introdutório para serem redirecionados ao post original. 
Sobre a Moda Masculina da época em questão, cliquem [aqui] que tem um tutorial legal.

"Oficialmente a moda da Era Romântica se estende aproximadamente de 1820-1840. Mas no Brasil do Primeiro Reinado (1822-1831) era um pouco diferente. Não havia industria têxtil no Brasil, consequentemente não existia Moda no país, apenas entre as pessoas abastadas do Rio de Janeiro. Roupas eram raras e caras e passavam de geração para geração. Tecidos e peças vinham de navio da Inglaterra e as revistas Fashion Plates chegavam com muitos meses de atraso, assim era comum que as costureiras consultassem estas revistas e confeccionassem roupas com uma moda "atrasada".
A moda masculina e a moda feminina ainda tinham traços da moda napoleônica (Império) e principalmente da moda colonial. As mulheres saíam às ruas com vestidos em tecidos leves e cobertas com com capas ou mantilhas negras. Vale lembrar que aqui elas não usavam espartilhos. São poucas as iconografias sobre a população brasileira na época, mas nas obras abaixo é possível ter uma idéia."

Clique pra ler:
http://picnicvitoriano.blogspot.com.br/2012/08/a-moda-feminina-no-primeiro-reinado.html

Família e escravos
 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Existe diferença entre a Moda Georgiana e a Moda Rococó?

A Sileide, uma das mais ativas participantes do grupo Picnic Vitoriano SP, me perguntou um dia: "Os trajes Barroco, Rococó e Georgiano são bem parecidos. Como se diferencia o de uma época da outra?"
Acredito que a dúvida surgiu porque alguns os revivalistas ocasionalmente falam em "traje da Era Georgiana".



1. Por que algumas pessoas dizem "traje da Era Georgiana" e outras dizem "traje da Era Rococó" pra se referir às vestimentas do século XVIII?
Na verdade a resposta é muito simples. Generalizando, se você é inglês ou mora na Inglaterra, chamará a moda do século XVIII e do começo do século XIX de Georgiana. Se você mora na França ou no Brasil, dividirá as modas desta época em períodos distintos. 


Contexto Histórico
Durante a maior parte do século XVIII, a França foi governada pela dinastia Bourbon. No governo de Louis XIV, o poder da França se espalhou pela Europa. O reinado de Louis XV abrangeu parte do que chamamos de Era Barroca. No fim do século XVIII, durante o reinado de Louis XVI, vimos uma arte genuinamente francesa surgir: o Rococó. Depois, a França passa pela Primeira República (1792 - 1804), época da moda Diretório e a seguir vem a moda Império, época de Napoleão Bonaparte (1804-1814).

Já na Inglaterra, de 1714 to 1830, o país foi governado por quatro reis George:  George I, George II, George III and George IV. Daí o nome "Era Georgiana".
Não houve uma nomenclatura de "moda barroca" na Inglaterra porque o Barroco é o movimento da contra-reforma. Como o Henrique VIII quebrou laços com a igreja católica, não houve reforma e muito menos contra-reforma na Inglaterra. O Barroco continental influenciou a Inglaterra, mas muito de leve.* O mesmo com a nomenclatura "Rococó": uma arte que nasceu na França e nunca teve um ponto de apoio no solo britânico.
Então, a Inglaterra governada por quatro reis George durante a maior parte do século XVIII e começo do século XIX, é conhecida como "Era Georgiana". E no começo do século XIX, houve um período chamado de Regência, quando George IV governou no lugar de seu pai, George III que estava doente.


2. Existe diferença entre as modas georgiana e rococó?
Poucas, como foi dito acima, os dois países usavam a mesma silhueta. As diferenças ficavam mais nos tecidos que buscavam favorecer a indústria têxtil de cada um dos países e nos adornos. 

Enquanto na França reinavam as sedas luxuosas, a frivolidade, a ostentação através da decoração de superfícies, perucas empoadas e penteados elaborados; na Inglaterra, o espírito geral da época era de comodidade e displicência. Os trajes ingleses tinham um toque puritano, esportivo, um gosto pelo campo. Vestidos justos, fichus, cabelos não empoados, chapéu de palha, vestidos sem estampa ou estampados leves em algodão eram preferência inglesa. Foram os ingleses que inseriram o panier (originado na Alemanha) na França, mas o modo dos dois países usar a peça era diferente.

                            No Rococó, o traje francês era mais elaborado e ostentativo...



 o traje inglês era mais simples e de influência campestre, 
mas mantinha praticamente a mesma silhueta francesa.
 

Foi só de meados pro  fim do século XVIII, que uma série de ilustrações de homens e mulheres inglesas usando de roupa informal à roupa de teatro foram publicadas na França. Os franceses se entusiasmam com a simplicidade e conforto dos trajes ingleses e os adotam. Um dos exemplos já citados aqui no blog é o robe a l'anglaise, um vestido estilo inglês que ficou em voga na França, sendo comum que este vestido fosse feito também em cetins e sedas, e na Inglaterra costumava ser feito em algodão, leve e para uso cotidiano.

Mas a adoção definitiva dos estilos ingleses pelos franceses se deu após a Revolução Francesa, quando todos os trajes que lembrassem o luxo, excesso, riqueza e ostentação visual, tão características da nobreza na Era Rococó, se tornaram indesejáveis. Assim, as roupas se simplificaram e a França, que ditava moda, passou  a se inspirar na moda rural inglesa, na chamada “Volta à Natureza”.



3. Qual a nomenclatura usada por nós (brasileiros)?
No Brasil, os historiadores de moda seguem a cronologia da moda francesa. Então, por aqui nós dizemos "Moda da Era Barroca", "Moda da Era Rococó", "Moda da Era Diretório", "Moda da Era Império". Não é comum aqui que um professor chame toda a moda do século XVIII e começo do XIX de "Georgiana", esta é uma nomenclatura usada pelos ingleses mesmo.


Curiosidade: É habitual que fãs das obras da escritora inglesa Jane Austen falem muito em "moda da Era Georgiana" (especialmente se referindo à moda da época de George III), pois sendo um escritora inglesa, ela usava a nomenclatura de seu país em seus livros.






* frase de minha amiga Iluá, que mora na Inglaterra e me ajudou com essa parte do Barroco.

Consultas:
História do Vestuário no Ocidente, François Boucher
http://en.wikipedia.org/wiki/Georgian_era
http://www.theguardian.com/artanddesign/2011/sep/10/baroque-british-architecture
http://www.dummies.com/how-to/content/the-rococo-influence-in-british-art.html
http://www.cfa.ilstu.edu/lmlowel/the331/rococo/womenreview.htm

sábado, 7 de setembro de 2013

Historicismo na Moda: Segunda Metade do Século XIX e Começo do Século XX (Parte 2)

O historicismo permanece influenciando a moda na terça parte do século XIX. As épocas usadas como referência permanecem praticamente as mesmas das décadas anteriores: antiguidade, renascimento, barroco e rococó, porém, em novas roupagens e silhuetas. Damas da corte, mulheres que desempenharam papeis importantes tanto na sociedade quanto na moda, como Mary Stuart, Marguerite de Valois, Maria Antonieta, Marquesa de Pompadour, Françoise Athénaïs entre outras, foram usadas como referência.


Século XVI 
A rica história do século XVI e início do século XVII, cheio eventos dramáticos, gerou uma enorme quantidade de romances históricos no século XIX. A referência permanece, como observamos abaixo principalmente nas mangas bufantes e nas golas grandes e rufos, como a gola Médici. 
A "gola Médici" era uma gola grande, decorativa que pegava os lados e a parte de trás da cabeça de uma mulher. Os rufos em golas altas também tiveram sua releitura no século XIX. Observem as semelhanças das golas em cada um dos quadros:


Alternadamente, imagens do século XVI e século XIX
Século XVI e século XIX (segunda e terceira imagens)
Século XVI e Século XIX
Século XVI (duas primeiras) e século XIX


No século XIX, capas eram muito populares, elas tanto podiam ter influência das capas barrocas quanto das capas renascentistas, abaixo, encontrei duas capas super semelhantes com diferença de três séculos entre elas. A da esquerda é de 1560 e a da direita, Mantle de 1888, desenhada por Charles Fredrick Worth.

Similaridade entre chapéus:


Século XVI e Século XIX (duas últimas)


Louis XIV  
O estilo Louis XIV no século XIX é principalmente uma renda exuberante emoldurando golas e punhos. As mangas dos trajes à direita também exibem características barrocas.




Louis XV
Quando falamos da influência da era de Louis XV na moda do século XIX, temos a Marquesa de Pompadour como referência. Observem nas imagens abaixo a cooptação no século XIX do estilo de penteado da marquesa. E no quadro a seguir temos a marquesa em um vestido dourado e dois vestidos do século XIX com claras referências às rendas, babados e ao formato do corpete e dos decotes usados na Era Rococó.


O fichu do século XVIII (uma peça que é como um lenço amarrado nos ombros), também teve seu revival no século XIX.


Um elemento da moda masculina rococó foi apreciado pelas mulheres do século XIX: o jabô!



Antiguidade/Primeiro Império 
Na virada do séculos XIX e XX o ciclo  se fecha.
Se o século XIX começou com a moda Império, que era inspirada na antiguidade clássica, no começo do século XX foi a própria moda Império que influenciou a moda. É como se as mocinhas da época quisessem usar roupas semelhantes às que suas bisavós usaram.
Esse "retorno" à antiguidade começou lentamente lá pela década de 1880, quando o traje feminino vai se tornando mais confortável e funcional, os vestidos caem suavemente ao redor do corpo e podem ser usados sem espartilho - os chamados "vestidos de chá". 

Na colagem que fiz abaixo, com scans de páginas de dois livros, vemos a influência grega nas vestimentas femininas dos anos de 1880 à 1909. Na terceira imagem da foto abaixo, tirada do livro Victorian Fashions & Costumes from Harper's Bazar 1867 - 1898 temos a página 129, onde a autora descreve: "este gracioso vestido neogrego combina características clássicas com requisitos da moda moderna. É composto de cashmere azul pálido drapeado, enfeitado com bordados de ouro. O corpete azul tem mangas transparentes (...) colar e braceletes etruscos que são reproduções feitas pelo Professor Schlemann (...) no cabelo, tranças gregas."



Fotografias que vão de 1908 a 1912.

Abaixo: vestidos de 1810 e 1892

No quadro abaixo temos na seguinte ordem, vestidos do: começo de 1800; vestido de chá do fim do século XIX; vestido de 1804 e vestido de 1909.


Referências de pesquisa:
História do Vestuário no Ocidente, François Boucher 
Victorian Fashions and Costumes from Harpers Bazar 1867-1898, de Stella Blum
Victorian and Edwardian Fashions from "La Mode Illustrée", de JoAnne Ollan
http://www.fashionencyclopedia.com/ 
http://sketchesoflife.livejournal.com 

Robe a L'Anglaise, Parte 2: Referências e Finalização

Antes de mostrar o resultado final de meu Robe a L'Anglaise, senti a necessidade de escrever um pouco sobre meus primeiros contatos com a criação de trajes e sobre as imagens que usei como referência.

Durante a faculdade de Moda, tive aulas de história da moda, modelagem/moulage e de figurino. Na primeira aprendi os contextos históricos, tipos de roupas e nomenclaturas. Nas aulas de Moulage aprendíamos a fazer moldes sob medida e por fim, nas aulas de figurino tínhamos de pôr a mão na massa!
O projeto de finalização do semestre de figurino foi a sala recriar esta roupa da  Isabella de Medici. Portanto, foi nas aulas de figurino que aprendi algumas coisas importantes para criar um traje, coisas que pra quem não é da área de Moda podem parecer difíceis de assimilar e colocar numa ordem de procedimento e de importância. Precisamos notar primeiro a silhueta da época escolhida para saber que tipo de underwear deve ser usada, depois disso precisamos ver os tecidos - na nossa recriação da Isabella de Medici foram comprados 8 metros veludo negro, foi uma zoação na sala de aula mexer naquele tecidão! A seguir, é necessário notar os acessórios para que o traje fique "assimilável" à época. No caso desse nosso trabalho de conclusão de figurino, não íamos fazer uma releitura e sim, tentar ao máximo se aproximar do traje do quadro, como uma réplica. A grande vantagem é que figurino é criatividade! Então ao invés de, por exemplo, usar cana pra fazer um farthingale, podíamos usar mangueiras de plástico e assim vai...
E foi alguns meses atrás consultando meu material das aulas de figurino, lendo alguns livros e reproduzindo os moldes de meus livros de moldes históricos que acumulei alguns conhecimentos para fazer meu Robe a L'Anglaise.

Época, silhueta e tipo de roupa escolhida:
A primeira coisa que fiz, como já contei aqui, foi escolher o Robe a L'Anglaise como peça a ser confeccionada. O robe a  l'anglaise era um traje que tinha a intenção de ser simples, para ser usado no cotidiano. O traje ficou em voga de aproximadamente 1750 a 1790, sendo que em cada época ele teve leves modificações e diferentes tipos de armação de saia. Os vestidos ingleses eram de algodão - ao contrário dos cetins e sedas dos robes franceses. 

Traje:
Busquei em obras de arte, livros e na internet muitas imagens de robes a l'anglaise até encontrar alguns que pareciam bem "facinhos" e escolhê-los como imagens de referência. Os mais "fáceis" pegam mais ou menos 1770 - 1790.
Como era meu primeiro traje histórico, optei por comprar um tecido liso, sem estampas.
Saí  à caça de um tecido de cor lisa, roxo. Meu robe ia ser roxo com rendas brancas. Eu havia decidido fazer um robe como se usava na França, em cetim ou tafetá. Então, parti pras lojas de tecido com duas folhas de sulfite com as imagens de referencia abaixo:



E então, tudo mudou...
Ao chegar numa loja, vi um tecido que me fez cair o queixo devido à semelhança com o de uma das imagens que eu tinha salvo no meu notebook. Só que a imagem era um robe inglês, em algodão. A partir daí bateu aquela dúvida: "E agora? Faço um robe à l'anglaise inglês ou francês?". Quase tive um surto de dúvida porque o robe roxo já estava na minha mente há uma semana.
Voltei pra casa sem tecido nenhum. Fui no notebook e imprimi  as imagens do robe de algodão e dias depois voltei à loja de tecido e com o tecido na mão e a referência na outra, disse pra vendedora: "É este! Quero 4 metros e meio!" Decidi que se era pra ser um robe a l'anglaise, ele seria ao modo original inglês: em algodão!


Este foi o robe que usei como referência pra meu traje. 
Abaixo, ele em duas versões: com anágua do mesmo tecido do vestido (e neckerchief) 
e com anágua branca (ou beginha?).

 
  
 Impressionante não? Mais de 200 anos depois, estampas que 
seguem a mesma idéia de design! 
A da direita é a que comprei, um algodão mais fino e com estampa mais miúda que o tecido antigo.


Um pouco do do processo:
Uma das características do robe a l'anglaise é este recorte na parte de trás do corpete e a saia em pregas.


Vocês podem reparar no molde que eu fiz, que marquei todas as preguinhas da saia.
Abaixo, algumas fotos. Não reparem que como o algodão é um tecido natural, ele amassa mesmo!

Pregas da saia do vestido


Me lembrei de tirar foto do molde do corpete cortado, mas esqueci de fotografar as mangas!



Detalhe das pregas na cava. No molde e depois de pronto.


Optei por ao invés de renda no punho, fazer este recorte seguindo o molde original.


                        Aqui o vestido quase pronto, faltando alguns acabamentos.
 

Fiz também um chapéuzinho! Queria que a copa ficasse bem baixinha, mas não foi desta vez! 


Peça finalizada
A anágua bege que estou usando não é a anágua verdadeira do traje. Eu esqueci a anágua de tricoline na minha outra casa. Tendo duas casas em dois Estados diferentes fica difícil pra carregar tudo pra lá e pra cá e tirar fotos. E foi isso mesmo que aconteceu, no ir e vir esqueci de trazer a anágua que é parte do traje, a anágua que verão nas fotos abaixo é uma anágua que fiz de teste para um panier. Mas ao menos vocês podem ter uma idéia do resultado final do vestido. E o sapato também pretendo encapá-lo com o tecido do vestido ou num outro tecido caindo pros tons da estampa.

Robe de Inspiração...

Meu Robe: na primeira foto, uso um necherchief branco ao redor dos ombros; na foto das costas, reparem que o vestido é um pouquinho mais longo atrás. Como esse robe é de inspiração do fim do século XVIII (1780-1790) a armação da saia é bem simples, usei um rump. Vocês vão notar uma diferença no caimento entre o robe acima (histórico) e o meu. É que meu tecido é bem mais fino que o tecido original por isso, cai mais leve.

Ah e eu prometo fazer um post sobre a história do Robe a L'Anglaise no século XVIII  ;-D
   
Considerações Finais
Este traje teve alguns erros que considero toleráveis por ser meu primeiro traje histórico.
Consegui riscar um Molde Histórico então o vestido tem praticamente um molde original de época.
Semelhança dos tecidos: assumi um risco de criar um traje com estampa "moderna".
Preciso melhorar a parte de trás. Queria que tivesse ficado um pouco mais "bicudo". Isso não foi defeito no molde, fui eu quem errou a mão na hora de costurar.
Como comentei no post anterior, tive um pouco de dificuldade nas medidas do corpete. Tive que adaptá-lo às minhas medidas e acho que ele ficou um pouco curto e justo em algumas áreas. Também queria que tivesse ficado com o decote mais profundo.
Foi a primeira vez que fiz um traje de época pra mim e não pra um manequim! E fiz sozinha, sem a ajuda dos colegas de sala de aula de figurino. Então agora me sinto bem mais motivada em fazer outros. Fazer moldes é uma coisa (já consegui fazer vários moldes de época) mas fazer o molde virar roupa é outra coisa, exige tempo e dedicação.


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NOTA AOS LEITORES


Olá, tudo bem?
Fico feliz que tenha chegado até aqui! Infelizmente não consigo responder todos os leitores com devida atenção. Me perguntam sobre livros que uso nos textos estão, eles listados neste link: https://modahistorica.blogspot.com.br/p/livros.html

Alguns textos foram escritos entre 2009 e 2013, num período que eu não anotei as fontes, por isso eles não as tem. Portanto, quem me escreve cobrando as fontes destes artigos, espero que compreendam que não posso colocar uma fonte que não lembro ao certo/exatamente qual foi, indicando algo errado. MAS os livros que uso estão no já citado link - pra quem quiser ir atrás deles. Sei que professores e orientadores lhes cobram fontes e nada melhor que ler livros pra adquiri-las.


A quantidade de emails e comentários é grande e soaria repetitivo e cansativo eu responder isso a um por um dos leitores. Gostaria que essa cobrança que às vezes vem como crítica, ficasse mais amena através da compreensão, pois quando comecei o blog não sabia que se tornaria tão grande e que viraria referência no Brasil.
Agradeço a compreensão (e os elogios ao blog).
Sana ♥