segunda-feira, 27 de maio de 2013

Trajes Infantis na Era Vitoriana

Hoje em dia é comum meninos vestirem azul e meninas pink. O modo como vestimos os bebês hoje é um conceito novo, até 1950 todas as crianças, independente de serem meninos ou meninas eram vestidos da mesma forma até certa idade. Por centenas de anos não houve o desejo de colocar os bebês em um gênero específico de roupas.
Nos anos 1950 os pais começaram a vestir os garotos como o pai e as garotas como a mãe. Mesmo assim roupas neutras ainda eram bastante populares. Foi em 1980 que as regras mudaram definitivamente. De repente, haviam apenas roupas destinadas a bebês “meninos” e “meninas”, nenhuma peça neutra (para ambos os sexos) estava mais disponível no mercado.

A pedido da organização do Picnic Vitoriano SP, fiz uma pesquisa sobre como eram as roupas dos bebês e crianças na Era Vitoriana. O mesmo post pode ser encontrado lá.

Bebês Vitorianos:
A Era Vitoriana viveu o que foi chamado de "o culto ao bebê". A Rainha Victoria pode ser creditada por começar isto, já que ela teve nove filhos. O aumento da riqueza da classe média significava que poderiam gastar em roupas e acessórios para seus filhos. As roupas dos bebês eram longas, decoradas com babados e bordados para que o mesmo pudesse ser exibido quando carregado. As peças eram sempre brancas por uma variedade de razões, tanto prática como simbólica. Quando nasciam embalavam-nos em capas elaboradas de transporte, usavam bonnets, gorros ou chapéus e eram carregados em carrinhos de três ou quatro rodas.
Os vestidos abaixo eram unissex, sendo o longo um vestido pra bebês de colo.




Pinafore
Era comum o uso de um pinafore (chamado em português de bibe ou babador) que era uma peça sem mangas vestida como um avental, preso na parte de trás, feitos de algodão com bordado inglês nas barras. O bordado inglês se tornou popular em meados do século XIX, pois era trabalhado em algodão pesado e poderia suportar lavagens constantes e os engomados das peças. Os pinafores também eram usados como vestuário decorativo para as garotas e nas mulheres como um avental protetor. Havia também as batas, igualmente brancas e com bordas ornamentadas.
Mas estes bebês privilegiados eram minoria, uma boa parte da população era da classe trabalhadora e uma parcela vivia abaixo da linha da probreza.

Nas imagens abaixo, de bebês e crianças, percebe-se que estão usando batas, vestidos, aventais ou pinafores brancos adequados às suas idades.

Crianças Vitorianas:
Por séculos os meninos usaram vestidos desde bebês até cerca de cinco anos de idade. A teoria mais provável para isso é que era mais fácil para trocar fraldas e para os meninos irem ao banheiro pois calções e calças tinham fechos complicados. Os vestidos eram geralmente de cor branca, mas os dos rapazes poderiam ser em cores mais escuras ou mais claras do que as meninas.

Imagens abaixo: Menino em vestido azul seguindo a moda da época, pantalettes, meia e sapato; À esquera é uma menina, à direita: menino (com pantalettes à mostra); Menino com cabelos longos, franja, vestido e chapéu; 4. menino de conjunto e chapéu.


Os meninos quando paravam de usar vestido, passavam a usar uma jaqueta simples ajustada na cintura com uma saia terminando na altura do joelho com calças embaixo e camisa com gola redonda. Os meninos mais velhos usavam um traje ao estilo Eton (uma escola para garotos que existe há 600 anos), que consistia de um terno de uma jaqueta curta e acinturada, calças, camisas de colarinho redondo, colete e às vezes gravata.

As meninas seguiam a mesma moda de suas mães em versão miniatura. Sendo muitas peças por baixo das roupas: um chemise (uma peça solta), drawers (uma espécie de calcinha até os joelhos), pantalettes  (calcinhas mais longas), stays (uma versão mais suave de um corset), crinolina, meias e pelo menos duas combinações (anáguas). O pinafore/avental era usado para manter o vestido limpo (lembrem-se de Alice no País das Maravilhas).

Anúncio de corset para as meninas e nas imagens seguintes: vestidos como o das mães porém mais curtos (clique para aumentar as imagens).


As pantalettes (calças longas) eram usadas por meninos e meninas. Feitas em seda, linho ou algodão, eram usadas para cobrir as pernas até o tornozelo ou as panturrilhas, eram lisas com babado de rendas ou outro acabamento na parte inferior de cada perna. Foram concebidas para serem vistas, ornamentadas. Até meados do século XIX não era considerado adequado para as crianças pequenas ter as pernas nuas. Na verdade, “perna” não era uma palavra educada, o termo aceitável seria “membros”. As pantalettes não eram underwear, eram projetadas para serem parte da roupa normal com a função de cobrir as partes da perna. Até mesmo crianças mais velhas usavam pantalettes com longas meias brancas. Foi só em 1860 que as crianças começaram a poder ficar com as pernas nuas, assim a peça desapareceu gradualmente após a década de 1870.

Pantalettes eram destinadas a serem vistas:


Vale lembrar que as meninas usavam saias com crinolina como suas mães, com a diferença importante que suas saias eram curtas, ao invés de longas. Na década de 1870 e 1880, saias estreitas tornaram-se populares.


Na década de 1890, tornou-se aceitável que as meninas usassem vestidos soltos e saias e blusas separadas. Trajes de marinheiro, se tornaram extremamente populares tanto para meninos e meninas. Embora essas roupas fossem mais confortáveis que as anteriores ainda eram bastante restritivas para os padrões modernos.

Ternos Fauntleroy
Uma moda muito popular entre os meninos foi o estilo Fauntleroy,  que surgiu devido ao personagem do romance best-seller de Frances Hodgson Burnett, “Little Lord Fauntleroy”, lançado em 1886. As peças são no estilo Cavalier /Restoration (1625-1715) ou seja da época da Guerra Civil Inglesa do século XVII (Era Barroca) e consistia basicamente de de um chapéu de abas largas, uma blusa com gola e punhos de babado ou renda, uma jaqueta de veludo, calças nos joelhos de veludo ou um kilt, meias longas, e uma variedade de calçados. Os trajes eram em maioria preto, mas algumas fotos coloridas indicam terem existido trajes em tons de azul, marrom, borgonha e verde.

O estilo Fauntleroy foi inspirado na moda Cavalier do século XVII:

 

O sucesso do livro se deu devido às  mulheres de classe média que ficavam em casa com uma boa quantidade de tempo livre que decidiram dedicar-se a vestir os filhos em modas elaborados e aristocratas. O veludo era um tecido caro, símbolo de status,  camisas de seda com babados ou rendas não eram apenas caras, mas exigiam uma grande quantidade de tempo para mantê-las impecáveis.  O Fauntleroy era usado por meninos cerca de 3 a 8 anos de idade, mas houveram meninos mais velhos do que 13 anos que usaram o estilo. Isso se dá porque na época, a maioria das crianças trabalhavam precocemente e ter um filho mais velho vestido de tal maneira era a prova da riqueza da familia.

Fauntleroy foi uma moda que durou de 10 a 15 anos e depois começou a mudar. Na  Era Eduardiana houve uma mudança notável no estilo: as jaquetas de veludo tornaram-se maiores. O Fauntleroy clássico desapareceu na Primeira Guerra Mundial e definitivamente nos anos 1920. Apesar de ser raro, os meninos do final dos anos 1930 podiam ser vestidos em ternos de veludo e blusas com algumas características Fauntleroy, mas eram ternos de perna curta e a gola de renda foi substituída pela gola Peter Pan.

Crianças Pobres:
As crianças de famílias pobres usavam roupas remendadas que poderiam ser de segunda mão e que depois passavam para outras crianças da família. Mesmo as crianças de origem relativamente confortáveis teriam possuído poucas roupas: talvez dois trajes para a semana e uma melhor para o domingo. Algumas crianças andavam descalças mesmo no inverno, quando eles forravam suas roupas com jornal para tentar manter-se aquecidos.

Brinquedos e brincadeiras: Alguns divertimentos da época eram: cavalos de madeira, quebra-cabeça, peteca, thaumatrope, trens, soldados, bonecas, casas de boneca, conjuntinhos de chá, letras do alfabeto, barquinhos, jogos de tabuleiro, damas, passar anel, cabra cega, pega-pega, roda, corda de pular e o futebol, que foi oficialmente inventado em 1863.
Entre as crianças  pobres não havia dinheiro para brinquedos de plástico mas eles os faziam com papel, madeira ou metal. Um pregador de roupas poderia virar uma boneca, um pedaço de madeira virar um barco. Brincavam em becos e com qualquer coisa que encontrassem, até mesmo ficavam dançando com os músicos de rua, remando em córregos, subindo em arvores e postes de luz.


 

O texto foi escrito pela autora do blog de acordo pesquisas em livros de Moda lançados no Brasil e no exterior. Se forem usar para trabalhos ou sites, citem o blog como fonte. Leiam livros de Moda para mais informações e detalhes.
*Originalmente postado em meu outro blog, o Moda de Subculturas.

 

5 comentários:

  1. Você pode me enviar as sua referências, deste artigo?

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    1. Sana (história da moda blog)22 de fevereiro de 2014 19:33

      Oi Samir, faz tempo que escrevi o artigo e só depois publiquei. Infelizmente não lembro com exatidão todos os livros que consultei, mas se quiser alguma info à mais, é certeza que o História do Vestuário no Ocidente trata do assunto e pode te ajudar!

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  2. Muito interessante este estudo. Gostaria de saber o que usavam no início do século XX como calça plástica?

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  3. Eu imaginava que as meninas usavam uma roupa mais leve,sem anáguas,crinolina,corsets

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    Respostas
    1. Elas usavam o mesmo tipo de traje que os adultos, não existia o conceito de infância como atualmente.

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NOTA AOS LEITORES


Olá, tudo bem?
Fico feliz que tenha chegado até aqui! Infelizmente não consigo responder todos os leitores com devida atenção. Me perguntam sobre livros que uso nos textos estão, eles listados neste link: https://modahistorica.blogspot.com.br/p/livros.html

Alguns textos foram escritos entre 2009 e 2013, num período que eu não anotei as fontes, por isso eles não as tem. Portanto, quem me escreve cobrando as fontes destes artigos, espero que compreendam que não posso colocar uma fonte que não lembro ao certo/exatamente qual foi, indicando algo errado. MAS os livros que uso estão no já citado link - pra quem quiser ir atrás deles. Sei que professores e orientadores lhes cobram fontes e nada melhor que ler livros pra adquiri-las.


A quantidade de emails e comentários é grande e soaria repetitivo e cansativo eu responder isso a um por um dos leitores. Gostaria que essa cobrança que às vezes vem como crítica, ficasse mais amena através da compreensão, pois quando comecei o blog não sabia que se tornaria tão grande e que viraria referência no Brasil.
Agradeço a compreensão (e os elogios ao blog).
Sana ♥